vitorluizmiranda

Ficou um fio de cabelo loiro

preso à minha barba

ficou o reflexo de olhos verdes

no fundo dos meus olhos

ficou o calor da pele bronzeada

aquecendo o meu corpo

ficou o excesso da manteiga de cacau

lambuzando os meus lábios

ficou os pelos arrepiados

de um suspiro ao pé d’ouvido

ficou nossos suores

salgando os lençóis

ficou a humidade do prazer

molhando meu sexo

ficou a saudade dos lábios

que me beijou

ficou a lembrança

da noite anterior

Mas ela não ficou

teve de ir trabalhar

e eu fiquei no seu lugar

sentindo o cheiro que ficou

na fronha do travesseiro

na toalha molhada

pendurada ao lado do chuveiro

aonde me banhei e esperei

que o vento que entrava

pela janela do banheiro

desembaçasse o espelho

para eu deixar ali

uma carta de amor

antes de partir

Ficou o batom…

Acordei…
Sob o efeito encantador
De um canto desafinado
Da mais linda voz
Que ressoava pelo quarto
Deixando meu coração em festa
Enquanto o sol entrava pelas frestas
Da veneziana…

Levantei…
Caminhei lentamente
Seguindo a voz até o banheiro
E fiquei a observar
Através da dilatação dos poros
Do vidro do banho box
A mais linda das cantoras desafinadas
Que cantava…

Sentei…
E na privada defequei
a poesia mais triste que derramei
Em lágrimas salgadas
Sob a lembrança da mulher
Que há muito tempo me deixou
Por livre e espontânea vontade de Deus
Chorei…

Sonhei…
Que ela não tinha partido
Que Deus não existia
Que o canto continuava
E o vidro não dilatava
Quando ela me beijou
E caminhou cantando pro chuveiro
Acordei…

Escrevi
EU TE AMO
na areia
e esperei
que a maré
subisse
para que
as ondas
do mar
viessem
inundar
o verbo
AMAR

O namoro estava por terminar

mas não o amor

por isso ele deixou na portaria

uma sacola com seus pertences

e uma última carta que dizia:

“Meu amor por você não poderei deixar na portaria

pois ele não cabe numa sacola,

não cabe nem mesmo neste planeta.

Ele está no ar, nas estrelas,

nos lugares por onde passamos

e naqueles que nunca estivemos um dia,

no sol que juntos olhamos,

no mar de Maresias,

nas profundezas dos oceanos,

nos anéis de Saturno,

em Marte e Netuno

e nos planetas ainda desconhecidos

em galáxias perdidas…

Mas existe um lugar aonde ele cabe

e aonde me encaixo perfeitamente,

onde existe calor quando faz frio,

onde eu vivo contente e sorrio,

onde o amor faz um laço

com os nossos braços.

Esse lugar é o seu abraço.”

Brasileiros

no alto dos morros cariocas

sob a mira de pacificadores

nas saídas de condomínios burgueses

no erro do GPS

pelo engano de um soldado desumano

reagindo ao furto de um bandido

cortando cabeças por um metro quadrado

queimando no mármore do paraíso

enquanto dormia

pelo fanatismo futebolístico

ou um crime passional

sofrendo o stress do dia a dia

na tristeza melancólica

sob efeitos colaterais de antidepressivos

pela sede de sangue de um Aedes Aegypti

usufruindo de um fumo cancerígeno

em meio a poluição da grande metrópole

comendo o pão que Deus amassou

na saúde tóxica do alimento torturado

em corredores de hospitais lotados

disputando terras indígenas

e terras sem donos

expulsos de um prédio vazio

é difícil incendiado

s
aquecendo o corpo

que penetra sem preservativos

prendendo mentes inteligentes

em camisinhas de força

no açougue fétil

na avenida paulista

com bicicletas ou lâmpadas incandescentes

num chute na cara da sociedade anônima

que enquanto espera no corredor da morte

grita por clemência com seus CAPS LOCKs

pela lei cumprida de um país de surfistas mortos

Armei um complô
Para comprovar o meu amor
Combinei comigo mesmo
Que seria só seu
Para que eu pudesse 
todos os dias
Encostar meus lábios 
nos teus

Pois meus olhos só brilharam como eles brilham na luz do sol, quando olhei para você que é uma estrela, como o sol.

Como na aurora de um dia de verão, aos sons dos pássaros o sol invadiu meu quarto pela minha janela.

E na noite quente nós dois trocamos olhares deitados nesse mesmo quarto, e você invadiu o meu coração.

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