vitorluizmiranda

ratazana

Ouvi um barulho lá embaixo. Eram ratos. Eles habitavam a sala. Viviam no forro da estante. Faziam barulhinhos incomodáveis. Porém a gente não deixaria quieto. Meus pais armaram um plano, ou melhor, compraram uma ratoeira. Daquelas ratoeiras gaiolas. O rato entra pra comer o alimento e nunca mais sai dali. Acho que foi o que aconteceu comigo nessa vida. Entrei pra comer um queijo e nunca mais saí. Adoro queijos. Os ratos nem tanto. O problema é ficar preso neste mundo cruel. Naquela época ainda não entendia a maldade do ser-humano. Nem sabia que existia. Se bem que na escola, a cada dia uma pessoa era escolhida pra ser o rato. Na verdade os ratos eram sempre os mesmos e não existia esse negócio de bullying. Já fui rato e sei como é. Já ouvi histórias de ratos que se mataram por aí. Cansaram de ser cobaias de piadinhas maléficas e desapareceram do colégio. Foram parar num rio sujo feito uma ratazana ou se mataram por causa de um queijo. Como se o queijo fosse a paz que eles procuravam. Enquanto existir seres humanos vivos não haverá paz.

Ouvi meu pai caminhar pelo corredor. A luz do corredor estava acesa. Tenho medo do escuro e ela iluminava o quarto. Pulei da cama e fui acordar meu irmão. Ele falava enquanto dormia, mas tinha o sono pesado. Ele tinha uns 13 anos e eu uns 9 nessa época de nossas vidas.

 

-Acorda, acorda!

-Que foi? – disse ele com voz sonolenta.

-Acho que é um rato!

 

Era o primeiro rato de nossas vidas. Ele pulou da cama e corremos seguindo meu pai que já descia a escada.

 

-Volta pra cama meninos. – disse minha mãe da porta de seu quarto.

-O que aconteceu? – perguntou minha irmã que sofria de insônia infantil.
-O RATO! – gritamos eu e meu irmão.

-Deixe os meninos. – disse meu pai.

-Aí que nojo. Eu não vou lá. – falou minha irmã.

 

Meu pai acendeu a luz da sala e lá estava ele feito um ratinho de laboratório que acabara de receber um câncer de presente. Corria pra todos os lados feito um fugitivo de filme policial americano quando entra num beco sem saída. E ele não tinha saída. A morte estava próxima.

 

-E agora o que a gente faz? – perguntou meu irmão.

-Tem que dar um jeito de matar ele. Se eu soubesse não tinha usado essa ratoeira.

-E mata como?

-Boa pergunta… – disse meu pai.

 

Ficamos pensando enquanto o rato tentava um novo caminho. O alimento dentro da gaiola estava intacto. Ele não deve ter entrado ali por isso. Os ratos são inteligentes e convivem com o ser humano a cerca de dez mil anos. Acho que Raul Seixas falava sobre eles na música “Eu nasci há 10 mil anos atrás”.

 

-E se a gente colocasse a gaiola num balde d’água? – sugeri.

-Boa ideia.

 

Levamos a ratoeira até o quintal. Era uma bela noite de lua cheia. Os lobisomens estavam em Paris ou em algum lugar da Europa. Enchemos um balde d’água até a boca. Meu pai pegou a ratoeira e a afogou n’água que começou a jorrar do balde.
-Cuidado com essa água meninos. Ratos transmitem doenças. – alertou meu pai.

 

Os ratos transmitem cerca de 55 doenças para o ser humano. Resta saber quantas doenças os seres humanos transmitem para os ratos. Mas isso pouco importa. O ser humano se fez do personagem principal aqui nesse mundo. Por isso vivemos contando a história da humanidade. Estamos cagando pras outras espécies em extinção e matar um rato se torna um ato normal. Rato é uma peste e precisa ser exterminada, por isso existem os dedetizadores. Por sorte dos ratos e azar dos seres humanos existem três ratos para cada um de nós e uma fêmea pode reproduzir cerca de 200 filhotinhos por ano. Se um rato pudesse escrever um livro sobre a história da “ratanidade” eles seriam os heróis e não os inimigos. Eles venceriam a guerra da peste negra. Talvez exista uma grande guerra mundial entre os ratos que a gente não sabe. São mais de 1700 espécies espalhadas pelo mundo. Quem sabe um dia eu faça um filme sobre ratinhos que fazem experiências em seres humanos de laboratório chamado “O planeta dos ratos”.

Enquanto eu lhe falava um pouco sobre a espécie nosso ratinho estava preso à gaiola submersa. Ele nadava desesperadamente sem conseguir sair debaixo d’água. O luar iluminava a água e a gente conseguia ver a expressão de desespero do nosso amigo. A sentença de morte foi dada e ele nem pode se defender. Agora ele era tão próximo mim. Quando vemos o sofrimento de um ser vivo de perto a gente percebe que não há diferença alguma entre nós. Os ratos nascem, crescem, fazem o que tem que ser feito para sobreviver e de repente morrem. Às vezes são assassinados por outros ratos, ou por outras espécies de seres vivos. Eu sou um homem ou um rato? Não passo de um ser humano de merda que aos 9 anos de idade encarou a morte de frente. Os ratos duram cerca de dois minutos respirando dentro d’água. Nesses dois minutos nenhum de nós três esboçou reação alguma. O ratinho afundava, parecia perder a consciência e depois voltava a nadar até encontrar as grades. As grades são a repressão dos sonhos. Ratos devem ter sonhos, desejos e devem fazer planos. Acabamos com os sonhos desse. Ainda vejo até hoje a imagem dele afundando na água já sem vida. Um pouco de nossas vidas se afundou com ele no fundo daquele balde e a gente sabia disso. Meu pai despejou a água no ralo e deixou a gaiola por ali. Fomos dormir sem dizer nada com a luz do corredor acesa. Meu irmão pegou no sono rápido e falou bastante durante a noite. Tive medo de morrer pela primeira vez na vida e chorei. Fiquei com dó daquele rato. Nós três nunca mais falamos sobre isso.

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Voltava pro hotel num fim de tarde de um belo dia na cidade maravilhosa dentro de uma perua chinesa que tem um dispositivo para esquentar o acento. Ligamos o ar condicionado no talo, cansados do dia árduo de trabalho sob um sol de 40 graus quando ouvimos o guia turístico dizer: “olha os pivetes à direita”.

Olhamos e vimos uma cena de cinema no maior estilo caixa baixa do filme Cidade de Deus. Cinco pivetes, aparentemente de uns 8 pra 10 anos, caminhavam ligeiramente próximos à Igreja de Nossa Senhora da Candelária, todos com uma garrafinha de plástico na mão. Garrafinhas parecidas com a que é servido o delicioso caldo de cana nas feiras paulistanas ao lado de uma barraca de pastel. Só que ao invés de caldo de cana havia um líquido transparente que era baforado pelos pivetes.
Adultos que voltavam do trabalho desviavam quando os garotos se aproximavam sem fazer menção de desviar dos transeuntes. Pensava eu que poderia ser espíritos menores de idades mortos por policiais militares na famosa chacina ocorrida na sombria noite de 23 de Julho de 1993. Mas os menores de idade assassinados naquela ocasião foram seis, totalizando 8 com os dois maiores que subiram. Dentre os menores daquela noite de julho, um que acabara de fazer 15 anos, ganhou um bônus como presente de aniversário e se tornou um dos sobreviventes da Candelária. Sandro Barbosa do Nascimento, o sequestrador do famoso Ônibus 174 que depois virou um excelente documentário dirigido por José Padilha. No desfecho deste sequestro, Sandro assassinou a refém com 3 tiros nas costas, após a polícia atirar em sua direção e erroneamente também atingir a refém Geisa Firmo Gonçalves, então grávida de dois meses. Sandro foi morto asfixiado pelos policiais dentro da viatura.
Entro numa reflexão sobre a cidade do Cristo, que foi presente de franceses assim como a Estátua da Liberdade na América! Cidade dos morros pacificados a base da tortura, onde quase ninguém mais lembra do Amarildo, pois já há novas histórias pra se contar e discutir nas mesas dos bares, onde a orla é “despacificada” a base de facadas que serão esquecidas quando novos assuntos surgirem para serem discutidos, na cidade onde os edifícios de metros quadrados caríssimos vão surgindo fazendo a espécie dos sobrados entrarem em extinção, onde as obras para a Copa do Mundo corrupta de 2014 e da próxima Olimpíada 2016 congestionam o trânsito, onde o manobrista do hotel nos aconselha a não sair a pé do hotel para procurar uma pizzaria pra matar a fome, pois há jovens com fome baforando cola com facas na mão e policiais com fome de matar.
Apesar disso tudo, o Rio continua sendo a cidade maravilhosa e sempre será pela beleza natural de seu relevo. Pela sua arte, arquitetura de edificios históricos e belas pernas que desfilam pela orla de Ipanema/Leblon/Copacabana. Uma cidade tão linda quanto a beleza da trágica história de Sandro e tantos outros pivetes.

Admirar a beleza da mulher que passa é como contemplar uma linda paisagem com um belo pôr do sol no horizonte de um mar azul.
Não posso negar. Sou um observador de belas mulheres que passam por mim. Se isso me torna um machista, sou machista sim.

Mas não posso negar também, que ao fotografar duas modelos vestindo roupas de uma marca em plena Av. Paulista me fez refletir sobre a questão. Estive ali registrando o que a mulher é obrigada a aturar todos os dias de sua vida.

A obra em festa! O pessoal abandonou o serviço para observar as modelos. Por sorte estávamos do outro lado da rua e elas sobreviveram as cantadas de pedreiro.

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Buzinadas e olhadelas de motociclistas e motoristas é algo comum no dia a dia.

Contrair torcicolos ao atravessar a rua também é algo corriqueiro.

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A mulher sofre ao andar na rua. Mais algumas inúmeras vezes elas foram assediadas durante o percurso da Praça do Ciclista até o MASP. Não ter a liberdade de vestir a roupa que quiser sem sofrer o preconceito de homens, e às vezes até de outras mulheres é muito triste. Muitas vezes em rodas de amigos posso ouvir o comentário: “Caralho! Que gostosa! Deve ser puta! Vestida desse jeito só pode ser puta.” ou ouvindo histórias de amigas que rotulam mulheres de “vagabundas” por certas atitudes. Por isso deveríamos dar mais atenção para a campanha #meuamigosecreto . Mas a campanha já caiu no esquecimento. O ódio no discurso foi tanto que não ouve diálogo. E sem diálogo uma conversa acaba. Escrevi um texto sobre uma situação “machista” que ocorreu comigo no banheiro de um bar e fui acusado de estar desmerecendo o movimento das mulheres por algumas amigas. Mas se o machismo está em toda a sociedade: nos homens e nas mulheres, nos heterossexuais e homossexuais, no branco e no negro, etc. Porque todo mundo não pode dialogar sobre o assunto? O fato de eu ser homem e ser heterossexual não muda o fato de eu querer um mundo melhor para minha mãe, minha irmã, para a mulher que for minha companheira e para uma possível filha que eu possa ter.

E a questão de apreciar a beleza alheia, ao meu ver, não pode ser considerada um machismo. Tudo depende da educação. Um cara torcendo o pescoço ou dando buzinadas para mulheres na rua pode ser tão escroto quanto um cara olhando pro seu pau enquanto você está urinando num mictório.

Mas não podemos acabar com a poesia. Meus amigos secretos continuam sendo Vinícius de Moraes e Antônio Carlos Jobim. O que seria da poesia e da música brasileira se esses dois não ficassem a beber no Bar Veloso em Ipanema enquanto observavam aquela “menina que vem e que passa num doce balanço a caminho do mar”?

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(Foto: Isadora Reimão)

 

De que vale uma poesia?

cantada

falada

escrita

ou reclamada?

 

Pois eu reclamo

quando exclamo

quando declamo

 

Uma revolta dita

gritada

para não ser ouvida

 

Querem ver o poeta morto

bêbado

caído ao chão

embriagado de vida

na orgia da solidão

com o nariz na pia

e um cigarro hollywood

na mão

 

querem vê-lo maldito

pelo mal dito

dos espectadores

de espetáculos tristes

 

querem vê-lo enlouquecer

se debater numa camisa de força

se derreter em lágrimas

chorar

sofrer

 

querem usa-lo

não querem ama-lo

querem vê-lo voar

pela janela

do décimo andar

 

depois de tudo acabado

querem julga-lo

acabar com sua morte

beber o sangue derramado

em cálices de vinho

contando piadas

homicidas

no botequim

 

Mas de que vale sua poesia

se sua vida não for um caos?

 

 

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(O Sétimo Selo – Filme de Ingmar Bergman)

 

Brasileiros

no alto dos morros cariocas

sob a mira de pacificadores

nas saídas de condomínios burgueses

no erro do GPS

pelo engano de um soldado desumano

reagindo ao furto de um bandido

cortando cabeças por um metro quadrado

queimando no mármore do paraíso

enquanto dormia

pelo fanatismo futebolístico

ou um crime passional

sofrendo o stress do dia a dia

na tristeza melancólica

sob efeitos colaterais de antidepressivos

pela sede de sangue de um Aedes Aegypti

usufruindo de um fumo cancerígeno

em meio a poluição da grande metrópole

comendo o pão que Deus amassou

na saúde tóxica do alimento torturado

em corredores de hospitais lotados

disputando terras indígenas

e terras sem donos

expulsos de um prédio vazio

é difícil incendiado

s
aqueando o corpo

que penetra sem preservativos

prendendo mentes inteligentes

em camisinhas de força

no açougue fétil 
da avenida paulista

com bicicletas ou lâmpadas incandescentes

num chute na cara da sociedade anônima

que enquanto espera no corredor da morte

grita por clemência com seus CAPS LOCKs

pela lei cumprida de um país de surfistas mortos

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(Foto: Carolina Ojo)

 
Eu e você juntos

Bebendo livros tintos

Lendo vinhos de poesia

No cigarro de incêncio

Fumando uma escada

Deitados no teto

Olhando pra cama

Bagunçando todas

As palavras

 

Eu e você juntos

Relendo livros vinhos

Manchados de poesia

Incendiando a fumaça

De um cigarro na escada

Teto deitado na cama

Olhando nós dois deitados

Bagunçando todas

As palavras

Ontem, dia 25 de novembro de 2015, quando estava indo embora da ocupação da EE Prof. Manuel Ciridião Buarque, fiquei sabendo por uma das alunas que alunos e professores que eram contra o movimento tentavam invadir a ocupação da EE Prof. Antônio Alves Cruz. Claro que eu não iria perder a notícia e migrei pra lá junto com meu fiel escudeiro, Renan Domingues.

Enquanto estacionava meu carro em frente ao colégio, avistei alguns alunos espalhados pela rua e pela praça Horácio Sabino. Fui conversar com eles e um aluno apelidado de Cebola relatou um pouco do acontecido e disse que já estava tudo tranquilo. A ocupação continuava.

Entre relatos de Cebola e outros alunos pude concluir uma história: a diretora do colégio entrou em contato com alunos que não aderiram o movimento por meio de facebook e whatsapp colocando medo neles, dizendo que eles repetiriam de ano se a ocupação continuasse. O resultado foi a tentativa de invasão desses alunos, que segundo relatos de uma aluna, atiravam pedras e carteiras, além de xingamentos e dedo do meio em riste.

Disse que queria entrar pra fotografar e uma aluna veio autorizar minha entrada. Fiquei esperando junto ao segurança, Piauí. “Você que é o Piauí?” eu perguntei e ele respondeu: “Graças a Deus”. Tirei uma foto dele. Ele sorriu. Falei: “Você é o segurança. Faz cara de mau.”

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Uma aluna veio autorizar minha entrada. Perguntou de onde eu era, por que estava ali e pra onde iriam as fotos. “Não sou de lugar nenhum. Só estou apoiando a luta de vocês.”. Fiquei de mandar as fotos pra ela via facebook. Ao invés da bandeira da França, ela usava a bandeira da Síria em seu perfil. Simpatizei com ela.

A escola estava tranquila e os alunos conversavam pelo pátio.

Outros alunos faziam sua parte na limpeza e como Piauí, carregavam seus crachás de identificação. Coisa que a polícia não anda usando quando aparece nas escolas.

A cozinha da escola é terceirizada e por isso os alunos não estão mexendo nos mantimentos ali deixados. Estão recebendo doações de alimentos e produção de higiene e limpeza (somente o governo do estado que está cortando a água. A página do ocupa Ciridião postou hoje que a água foi cortada). Os alunos estão cozinhando. Infelizmente eu e meu fiel escudeiro tivemos que ir embora e não podemos saborear o prato do dia: macarrão com macarrão. Mas há indícios de que alguns alunos que tentaram a invasão de manhã cedo ficaram pro almoço.

texto e fotos: Vitor Miranda

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