vitorluizmiranda

Se a vida fosse um vai e vem ela seria foda como o sexo. Mas a vida só vai e nunca volta. O que me faz olhar para trás com um saudosismo melancólico pois há coisas na vida que me faziam muito feliz e nunca mais terei essa experiência novamente. Como o fato de estar numa sala de aula no colegial sem preocupação com vida financeira e o caralho a quatro. Apenas preocupado em se aparecer para a turma ao atrapalhar as aulas de português da professora Francisca, vulga Chica Maluca. Matar aula de matemática para jogar bola e voltar de ônibus dando em cima da garota do bairro. Dar aquela dormida a tarde no sofá e só acordar com a mãe voltando pra casa com pão e manteiga na hora da Malhação. Na minha época Malhação era uma novelinha bacana que tocava Charlie Brown Jr. e o Cabeção andava com seu “Ogromóvel” pra lá e pra cá atrás da mulherada.

Tinha também o “três dentro e três fora” que eu jogava com o molecada na rua. Mas o que todo mundo gostava mesmo era o “rolinho porrada“, ou “passou levou”, depende da quebrada que você era. Na minha rua era “rolinho porrada” pois o pau comia solto. Até o sujeito chegar no poste para se livrar da pancadaria era uma eternidade de pontapés e socos no estômago, nas costas, só não valia bater do pescoço pra cima. Era bom ficar esperto para não tomar uma bola entre as pernas.

Falando em futebol, jogar bola com os primos no imenso quintal da vovó já não dá mais. A gente cresceu e o quintal ficou pequeno demais para poucos primos. Quem dirá quando brincávamos de policia e ladrão. Todos nós éramos ladrões e a única polícia era a nossa avó. Judiamos um pouco da velha, mas ela ainda aguentava bem a brincadeira. Hoje em dia só se for uma partida de xadrez ou sentar na beira cama dela e ouvir histórias, ou contar algumas. Nada como um netinho para fazer uma pessoa sorrir no fim da vida.

Falando em futebol e envelhecimento. Jogar bola com meu pai já é algo que talvez não aconteça nunca mais. Era algo divertido que nos tornava mais próximos. A parte mais divertida era quando eu com meus treze anos de idade lhe metia um chapéu ou uma caneta e seus amigos começavam a rir e soltar piadas do tipo: “esse mês não tem mesada hein”. Em algumas dessas oportunidades meu pai me passava o rodo. Não para machucar, mas só para eu aprender a respeitar os mais velhos.

Imaginar a terceira guerra mundial enquanto eu manipulava meus bonecos de Comandos em Ação também nunca mais irá acontecer. Não que eu não possa brincar mais com bonecos. Mas a imaginação já não é a mesma. Um professor de teatro uma vez me falou algo sobre isso. Sobre crescermos e perdermos aquela imaginação lúdica que tínhamos quando criança. Mas creio que talvez isso fosse possível fazer novamente se eu não tivesse que perder meu tempo me preocupando com dinheiro para pagar as contas.

Porém o que eu mais gostava e nunca mais irá voltar é aquela sensação de viajar com seus pais para um hotel fazenda e ficar na turma dos jovens da recreação. Aquela entre a dos adultos e a das crianças. Com monitoras que despertam nossa libido juvenil com seus sotaquezinhos de interior e seus corpinhos de estudante de educação física. Elas sempre simpáticas e nós, os jovenzinhos, achando que teríamos alguma chance. O trabalho delas era ser simpática e divertir a gente. Quase a mesma função de uma prostituta, só que uma diversão diferente. E também tinha as outras jovenzinhas hóspedes do hotel. Dependendo do hotel essas jovens eram muito bem afeiçoadas e muito bem tratadas pelos pais. E flertar nas noites de ar puro do interior com essas garotas, procurando um disco voador entre as estrelas durante uma brincadeira de polícia e ladrão pelo hotel sempre foi muito divertido. Lembro de uma vez que fomos para um hotel e voltei encantado por uma ruivinha artificial com quem flertei por lá. Acho que era Fernanda o nome dela. Não me lembro bem. Acho que se eu ver essa garota na rua hoje nem vou reconhece-la. A gente deveria ter uns treze anos na época. E ainda me lembro de passar dias pensando naquela ruivinha artificial e ouvindo um CD do Zeca Pagodinho do meu pai que tinha a música “Saudade Louca” e que eu ficava cantando “Nunca mais ouvi falar de amor…” baixinho, deitado na cama.

Sofrer de amor deitado na cama ouvindo uma música repetidas vezes é uma coisa que sempre vai acontecer na minha vida, eu acho. Mas arranjar uma namorada num hotel fazenda enquanto se participa das brincadeiras da turma jovem da recreação. Isso nunca mais. Mas quando eu tinha meus dezessete anos isso aconteceu e foi a primeira grande mulher a passar pela minha vida.

Meus pais seguiram o conselho dos vizinhos e fomos em quatro famílias para um hotel fazenda em Barra Bonita no interior de São Paulo. Lá aonde o Rio Tietê ainda é bonito e limpo. Era carnaval do ano de 2007. O melhor carnaval de minha vida. Que me desculpe os outros carnavais, mas é que nesse eu conheci Maria Isis.

Lembro que logo ao chegar no hotel, na sala de recepção, cruzei com uma bela família com duas belas mulheres. Mãe e filha. Morenas de cabelos encaracolados. A filha tinha luzes e um olhar cheio de brilho que cruzou com o meu rapidamente. Dei um sorriso e cumprimentei a família com um sonoro “boa tarde!” que foi retribuído.

No final desse dia ainda rolou uma integração juvenil no hotel em que eu, minha irmã e minha vizinha, que tinha uns 14 anos na época e já era uma graça, participamos. Percebi que aquela galera frequentava aquele hotel todos os carnavais desde a infância. A maioria já se conhecia e eu precisava buscar o meu espaço para arranjar algo nesse carnaval e não ficar chupando o dedo. Havia belas garotas por ali. Além de minha vizinha, é claro. Tinha uma loirinha muito bonita que estudava num colégio baita caro em São Paulo. Eu deveria ser o único ali, junto com minha irmã, que estudava em colégio do estado. Mas isso nunca foi problema para mim, e eu até achava um jeito de deixar isso interessante ao contar histórias para as garotas. Falando em garotas também havia entre elas uma morena magrinha, que parecia estar tentando seduzir todos a sua volta. Ela era filha do sujeito mais competitivo do hotel, principalmente quando se jogava Biribol. Acho que o nome dela era Isadora, não me lembro. Me lembro só dela, que era bem bonitinha, aquela coisa de burguesinha bem cuidada. E eu até me deixaria seduzir se eu não tivesse dado de cara com aquela morena de olhos brilhantes que me sorriu espontaneamente ao responder meu “boa tarde”. Mas aonde estava essa morena? Acho que tinha ido dormir.

Fiquei ali mais um pouco jogando o jogo interativo com os outros jovenzinhos e prestando atenção nas monitoras do grupo juvenil. E conhecendo a rapaziada. Tinha um grandão que se chamava Rodrigo, deveria ter uns dois metros de altura, e era o típico grandão bobão. Tinha um tal de Thiago, um sujeito engraçado, porém pouco confiável, que daria em cima da minha futura namorada através das redes sociais. E tinha um tal de Tico que foi o único sujeito que eu fui com a fachada.

Foi uma noite de sexta-feira agradável. Após o término da recreação fiquei conversando com os meus novos amigos e com as possíveis vítimas daquele carnaval. Com aquele meu papinho furado, mas que ainda contava com meu sorriso branco.

No dia seguinte, num sábado de carnaval, acordei cedo, escovei meus dentes e fui ver a programação da recreação juvenil que começava sempre com qualquer brincadeira bem legal numa quadra poliesportiva qualquer. Isso nunca mais vai acontecer. De agora em diante, se eu quiser seguir a programação, é caminha junto com os idosos, ou tomar uma cerveja na piscina e de meia em meia hora dar aquela mijadinha disfarçadamente enquanto espero pela hidroginástica.

O dia passa devagar quando a gente é jovem. Brinquei nos tobo-águas. Engraçado que tinha uma criancinha que enfiava a sunga no rego para descer nos tobo-águas. Era o tipo daquela criança que a gente olhava e pensava “Hummmmm esse aí não sei não, viu”. Mas para os pais dele não era problema, mesmo porque o pai dele era um sujeito que estava atracado com o namorado na piscina para a repulsa dos outros hóspedes. Naquela época o assunto ainda era tabu e não existia beijo gay nas novelas globais. Eu ainda era um sujeito jovem que cometia bullying contra os homossexuais do meu colégio. Mas pra falar a verdade eu estava cagando e andando pois a vida dos outros não me afetava em nada e eu só queria achar aquela morena de luzes no cabelo e me atracar com ela na piscina.

Enquanto isso a tal de Isadora ficava ali por perto. E eu ficava olhando sua bundinha balançar quando ela passava enquanto meus vizinhos reclamavam de um cara de bigode e rabo de cavalo que não sabia brincar e ficava enchendo o saco durante um jogo de Biribol.

A tarde joguei futebol num belo campo de grama sintética. E meu parceiro de ataque era um sujeito de bigode e rabo de cavalo que ficava me dando conselhos táticos futebolísticos. Não a nada pior do que isso para um jovem que está brincando de jogar bola. Eu só queria fazer um gol e gritar “Chupa bigode filho da puta! Eu vou comer a sua filha!”. Mas o fato é que isso nunca mais vai acontecer. Eu entrar no time dos adultos. E vou passar a entender os amigos velhos do meu pai que não gostava que um jovenzinho jogasse bola com eles. Como diria um velho amigo: “Ficar velho é uma merda. Tente o suicídio antes.”. Nisso eu meti um golaço e o bigodeira veio gritando em minha direção “Boa menino, boa!” e me deu um abraço suado e aquele tapinha na cabeça que quem diz “tá aprendendo, tá aprendendo” enquanto eu pensava “se não fosse a outra morena, eu iria abraçar a sua filha seu velho fedorento”.

O dia foi-se embora. O sol baixou e os hóspedes foram tomar banho. Após o jantar rolou um coquetel no hall do hotel e eu beberiquei uns drinks vagabundos junto com a rapaziada. Dava risada junto com o tal de Thiago e o grandão bobão. Falávamos sobre as mulheres daquele hotel. Até da vesguinha gordinha. Era gente boa a vesguinha, mas era gorda. Tipo um BigMac com pão sem gergelim. Os caras me falaram sobre a tal de Isadora dar em cima de alguém em todos os carnavais. Parece que esse ano era eu o escolhido. Mas entramos em consenso quando a morena e sua família passou. Falamos das duas: da mãe e da filha. Aquele papo de homem no melhor estilo “E aí comeu?” de Marcelo Rubens Paiva. Mas já percebi ali que a concorrência seria grande. Ainda mais tendo na jogada um cara de quase dois metros de altura.

Cansei desse papo masculino idiota e fui me sentar com minha irmã e minha vizinha de 14 aninhos. Folgado do jeito que sou, me deitei no sofá e apoiei minha cabeça no colo de minha vizinha. É uma situação um tanto maternal e as mulheres parecem gostar disso e minha vizinha me fez cafuné. Juro que se não fosse a morena eu tentaria estreitar minha relação com a vizinhança. Ainda mais que a família era incrível. Acho que antes de entrar num relacionamento devemos conhecer a família da pessoa. Primeiramente por família ser super importante e pode rolar umas festas bacanas de família que você pode ser envolvido. Mas também por causa dos traumas. Família problemática, mulher psicologicamente surtada. Há suas exceções, é claro. Mas também aquilo ali nunca mais poderia acontecer. Digo quanto a eu receber carinhos de uma garotinha de 14 anos. Tendo 17 anos ainda vai lá, mas com 25 anos de idade já é pedofilia braba. Se bem que tem umas garotinhas de 14 anos…

Ia começar uma brincadeira investigativa. Dois grupos perdidos pelo hotel. Com rádios para se comunicar. E um grupo tinha que dar pistas para o outro grupo e quem se achasse primeiro ganhava. Pedi pra minha irmã e minha vizinha chamar a tal morena para brincar com a gente. Ela aceitou e chegou junto com minha irmã na roda. Logo todos os espertões quiseram aproveitar de minha “espertice” e se aproximaram para conhecer a jovem. Perguntei qual era o nome dela. “Maria Isis” ela disse e sorrimos um para o outro.

Fui designado a escolher um dos times. Ela foi a minha primeira escolha. Depois escolhi minha irmã, minha vizinha e por aí em diante. O tal de Tico acabou caindo no meu time. Um malandro de poucas idéias. Gosto de pessoas assim. Nessa época eu ainda conversava bastante com as pessoas, mas superficialmente. Talvez até hoje eu seja assim e só tenho papos profundos com algumas poucas pessoas. Acho que por isso me identifiquei com o sujeito e ele comigo. Passou algum tempo e começou a brincadeira. Cada grupo foi para um lugar se esconder. O Tico deu a idéia de nos escondermos na sala de computadores do hotel. A primeira dica que demos foi “vemos uma cadeira”. Não lembro quais as dicas que eles deram, pois logo desistimos de procurar o grupo e resolvemos apenas caçoar deles os fazendo andar pelo hotel inteiro enquanto a gente ficava sentados olhando para a tela do computador aonde ficavam as fotos do hotel para que os hóspedes pudessem escolher e comprar. A gente parava numa foto da piscina e dizia “estamos vendo uma piscina”. Logo depois a gente falava “estamos vendo o Thiago” e galera bufava “esses malucos estão tirando!”. A gente gargalhava sem parar. E Maria Isis ali, ao meu lado.

A brincadeira acabou, ninguém ganhou, mas eles ficaram putos com a gente. Estava pouco me importando para as brincadeiras. Queria era conversar com Maria Isis. E ficamos ali conversando até tarde. Ela também tinha 17 anos e estava numa faculdade de alto nível estudando arquitetura. Enquanto eu acabara de reprovar o terceiro ano em um colégio estadual e não estava afim de nada com vida. Era uma situação meio “Eduardo e Mônica”. Ela fazendo maquete e eu naquele esquema escola, cinema e baseado no escadão. Ela disse que ia dormir para acordar cedo. Acompanhei ela até o seu chalé e lhe dei um abraço. Ela me olhou com seus olhos que brilhavam ainda mais sob a luz do luar. Quando ela virou as costas eu ainda disse “boa noite!”. Ela se virou e sorriu. Nunca irei esquecer do sorriso dela. Fiquei observando ela entrar e depois caminhei até o meu chalé contando para a lua o que estava sentindo. Andar sozinho pela noite e conversar com a lua me soa um pouco Natiruts. Mas tudo bem, eu gosto de Natiruts.

O domingo foi muito mais agradável do que o sábado. Passei o dia em companhia de Maria Isis e de uma menina que ela havia conhecido no sábado. Uma garota com belos e enormes peitos. Não sou assim um admirador de peitos grandes. Me lembram atrizes de filme pornô americano. Mas os dessa garota eram bacanas.

Brincamos no tobo-água e rimos do molequinho com a sunga enfiada no rego, jogamos Biribol e ganhamos para a fúria do senhor bigode que estava no outro time, almoçamos juntos, participamos de uma brincadeira na quadra e só nos separamos na hora do futebol. Dessa vez meu pai que dividiu o ataque comigo, porém saiu machucado. Nosso entrosamento era algo como Pelé e Coutinho. Lembro que nunca deixavam a gente jogar no mesmo time de sábado que durou uns 10 anos. Mas às vezes não tinha jeito e era difícil nos marcar. Infelizmente nessa época já era cada vez mais raro e hoje é praticamente inviável que nossas tabelas venham a acontecer novamente. E o meu time ganhou para o desânimo do bigode que estava no ataque do outro time.

Após o futebol encontrei Maria Isis e sua amiga peituda novamente. Ficamos conversando na piscina até escurecer. Eu já começava e arriscar uns abracinhos por debaixo d’água e umas cantadas baratas que fazia ela e sua amiga cair na risada. Um pouco depois Tico se juntou a gente. E ficamos ali os quatro contando histórias e dando risada enquanto o sol saia de cena. Um fim de tarde agradável daqueles que nunca irei esquecer. E daqueles que talvez nunca terei outra vez na vida. Não nessas condições de jovem que acaba de conhecer uma garota jovem. Os dois livres de preocupações e com o único intuito de se conquistarem e serem felizes durante uma viagem de carnaval. Numa época em que tudo é pra sempre e não apenas por uma noite ou um fim de tarde. Aos 17 anos ainda somos seres ingênuos que estão começando a perder a pureza. Às vezes tenho inveja do meu amigo que namora a mesma garota desde os 17 anos. Eu nunca poderei ter essa experiência. Talvez ele tenha inveja de mim que vivi a minha juventude solteiro. Mas viver é cair num abismo. Depois que botamos a cabeça pra fora de nossas mães, não tem mais volta. É só aproveitar a queda e esquecer do que ficou pra cima. Até que um dia chegaremos ao chão.

A noite nos encontramos depois do jantar. A programação era uma baladinha. Não foi nada animada a tal baladinha. Quase ninguém dançou. Mas a juventude do hotel estava lá. Conversamos com o pessoal. Isadora me olhava de longe mas eu nem dava bola. Só queria saber de Maria Isis. E todos os caras queriam saber dela. E eu já estava ficando nervoso com o tal de Rodrigo. O grandão bobão. Mas eu não poderia agredir ele se não iria tomar uma tremenda surra. O cara era grande. Então deixei o cara tentar. Estava confiante. Apesar de Maria Isis fazer jogo duro, eu confiava no seu olhar que dizia que me queria da mesma forma que o meu olhar queria ela. E o grandão tentou. Enquanto eu estava sentado num sofá conversando com Maria Isis, ele se aproximou, pegou na mão dela e a chamou pra dançar. Eu fiquei puto da vida com a petulância desse rapaz. Porém logo me acalmei quando ela meio sem graça com a situação, olhou para mim como se dissesse “eu tô com ele” e disse pro tal Rodrigo que não queria dançar. Ele saiu andando e nós dois ficamos nos olhando. Tentei disfarçar o meu ciúmes, mas não deu certo. Ela começou a rir de mim. “Esse grandão bobão filho da puta tá tirando. Só pode.” E ela ria dizendo “você está com ciúmes”.

Nessa noite acompanhei ela até o seu chalé novamente. Enquanto caminhávamos peguei em sua mão. Eu não era o tipo do cara que andava de mãos dadas por aí, mas dessa vez eu senti vontade. Alguma coisa acontecia por dentro do meu corpo. Uma sensação que nunca havia sentido antes. Acho que essa sensação eu posso sentir pelo resto da minha vida. Talvez eu me apaixone aos 80 anos, se eu chegar até lá, pela velhinha da dentadura mais bonita do baile da terceira idade. Mas estou fazendo de tudo para a minha vida não chegar até os 60. Não gosto muito de peles enrugadas e nem de falta de dentes.

Paramos em frente ao chalé que ela estava hospedada e ficamos nos olhando por um tempo. “Por que tu não foi dançar com o grandão bobão?”. “Precisa mesmo responder?” disse ela. Não me contive e sorri. Me aproximei para beija-la. Ela desviou do meu beijo e me abraçou. Me deu um beijo no rosto e me disse “boa noite” e partiu. Eu não entendia nada de mulher ainda nessa época. Não entendi bulhufas do porque ela não ter me beijado. Precisava fumar um cigarro e conversar com a lua sobre ela, Maria Iris. Entrei no hall do hotel procurando algum adulto que me arranjasse um careta. Estava vazio, a não ser pela presença de Isadora que vinha descendo da baladinha desanimada. Ela veio até mim e perguntou o que eu estava fazendo por ali. Disse que estava procurando um adulto que pudesse me dar um cigarro. “Por que você fuma?” ela perguntou. “Porque eu sou viciado.” respondi. Ela deu risada e fomos caminhando em direção aos chalés. “E você está ficando aquela menina lá?“. Me surpreendi com a pergunta mas respondi “Pô estou tentando. Mas não estou entendo nada. Acho que não entendo nada de mulheres. A gente passou o dia inteiro juntos. O Rogrido chamou ela pra deixar e ela recusou. Já andamos de mãos dadas e tudo. Mas fui beija-la agora quando a levei pro chalé e ela recusou meu beijo.”. Isadora ficou me olhando carinhosamente enquanto eu falava. O que me deixou meio sem graça, fazendo com que eu desistisse de me lamentar. Então ela veio se aproximando, me fazendo cafuné e enfim me beijou. Foi surpreendente demais para que eu pudesse evitar. E não vou mentir. Gostei muito daquele beijo e estive pleno nele. Foi um daqueles beijos que dura uma eternidade em poucos segundos. Mas quando o beijo cessou e eu abri meus olhos e vi que não era Maria Isis quem estava me beijando… “Acho que eu preciso dormir” eu disse. Não sei como ela recebeu isso, então resolvi fazer um elogio. “Você beija bem pra caramba!“. Lhe dei um beijo no rosto e um abraço e acompanhei ela em silêncio até o seu chalé que ficava no caminho do meu.

No outro dia de manhã acordei com a cara inchada e dolorida. Fui até o espelho e olhei aquilo. Havia uma bola abaixo da minha orelha. “Mãe que porra é essa no meu rosto?”. “Não fala palavrão menino! Deixe-me ver…”. A expressão da minha mãe não foi muito boa. Minha irmã deu risada e disse que era caxumba. De fato alguns amigos nossos estavam passando caxumba de um para o outro. “É, vai ter que largar a menina e ficar descansando se não vai acabar descendo pro saco” caçoou meu pai.

Eu preferia ficar de saco inchado do que perder a oportunidade de passar mais um dia inteiro ao lado de Maria Isis. Era segunda-feira de carnaval. Tinha só até a quarta-feira de cinzas para aproveitar.

Escovei meus dentes, me troquei e saí do quarto. Ao trancar a porta me lembrei da merda que havia acontecido na noite anterior. Pensei “Foda-se. Vou fingir que nada aconteceu” e fui tomar meu café da manhã com meus pais e vizinhos. Ao terminar minha primeira refeição do dia, passei na mesa da família de Maria Isis para dar “bom dia!”. Conheci seu irmão que devia ter uns 13 anos e era muito, mais muito engraçado! Seu pai que era um sujeito esportista, empresário de sucesso, um sujeito bacana. Se chamava Roberto e me olhou daquele jeito dos pés a cabeça como quem diz “então é você que está querendo comer a minha filha?”. Mas também foi um olhar simpático. Me convidou para sentar e eu como um bom cara de pau educado que sou, me sentei. Sua mãe, Maria Luiza, que era uma mulher muito bonita me ofereceu um sorriso acolhedor. Gostei dessa família! O problema é que quando você conhece uma garota bacana, de família e se apaixona por ela. Surge o momento que você tem de sentar a mesa para o interrogatório. Será obrigado a responder perguntas indiscretas. O pior de tudo é quando você é um bosta que acabou de repetir de ano num colégio estadual e está cagando pra vida.

Antes de qualquer pergunta levei a conversa para outro lado e me fiz de vítima reclamando de dor e relatando o estado em que acordei. Com meu rosto inchado e com sintomas de caxumba. Ainda lhes contei a piada que meu pai fez comigo “E meu pai ainda falou que eu não ia poder passar o dia com a filha de vocês pois se não a parada ia descer lá pra outro lugar, sabe?”. Eles riram, apesar de eu meter a filha deles na história. A mãe dela que era dentista perguntou se eu já tinha arrancado os dentes do siso. Disse que não. “Então vai ver isso quando você voltar. Pode ser que esteja doendo pois está empurrando os outros dentes.”
Fiquei um pouco aliviado pelo meu saco escrotal, mas o assunto não segurou muito e Roberto perguntou o que eu fazia com um sorriso. Maria Isis se envergonhou e disse “Aí pai…”. Eu me cresci e comecei omitindo que havia reprovado de ano. Falei que estava fazendo um curso técnico em Computação Gráfica ao mesmo tempo que terminava o colégio. Cursos técnicos impressionam pais. Botei firmeza na resposta, mas o fato é que eu não lembro de porra nenhuma que estudei naquele curso. E creio que isso também nunca mais vai acontecer. Meus pais acreditarem na minha boa vontade de estudar e me pagarem um curso. Eles já me deram inúmeras oportunidades e eu caguei em todas elas. E hoje sou um rapaz adulto com condições de bancar meus próprios cursos.

Me saí bem do interrogatório e fui libertado. Saí dali levando a filha deles comigo para passear pelo hotel. Enquanto caminhávamos para a piscina o casal gay estava a nossa frente. Um apalpando a bunda do outro. Pensei em apertar a bunda dela, mas ela nem se quer me deixou beija-la, imagine então tocar seu corpo. Então rimos da situação e peguei em sua mão. E caminhamos mais um pouco assim, conversando, até que chegamos na área da piscina e soltamos as mãos com vergonha ou sei lá porque. Agora era a vez dela passar pela mesa de meus pais. Mas antes de chegar na mesa em que meus pais estavam passa por nós Isadora. Ela nos olhou e disse “bom dia” e nós respondemos. A minha voz saiu um pouco abafada, mas me deu um alívio desse primeiro choque pela manhã.

Na mesa de meus pais minha mãe sempre simpática e meu pai com seu carisma de vendedor e todo orgulhoso do filho estar pegando a garota mais bonita do hotel. Os vizinhos curiosos também vieram dar um “oi” e aquela famosa averiguada. Me senti como um namorado que não beija na boca. Mas tudo bem, eu estava curtindo estar na companhia dela e andar de mãos dadas. Namorar de mãos é outra situação que nunca mais vai acontecer. Quando eu tinha uns 3 aninhos de idade eu tinha uma namoradinha que se chamava Jaqueline. A gente andava de mãos dadas. Morávamos no Bairro do Limão em São Paulo. Minha família saiu de lá quando eu tinha 4 anos e nunca mais vi essa menina e nunca consegui acha-la pelas redes sociais. Então se alguém conhecer uma mulher de 25 anos chamada Jaqueline e que nasceu no Bairro do Limão, por favor, mandar inbox.

De manhã foi aquela coisa. Passamos o dia na piscina e depois sentamos para assistir Biribol. Fomos almoçar juntos. Depois acompanhei ela até seu chalé para que escovasse os dentes e depois fui escovar os meus. Nos encontramos no hall do hotel. Ela se sentou no sofá e eu deitei minha cabeça sobre seu colo e ela fez carinhos em meus cabelos. Conversamos algumas besteiras e depois fomos dar um rolê pelo hotel para fazer a digestão. No caminho encontramos Tico e a amiga peituda que estavam feito a gente. In love. Andando pra lá e pra cá juntos. Parecia um inconsciente coletivo. Todo mundo querendo namorar nesse carnaval. Inclusive o casal homo-afetivo.

Mais tarde nos juntamos ao grupo de jovens para a brincadeira proposta pela recreação. Era mais ou menos um polícia e ladrão com bexigas d’água. Foi bastante divertido até que avistei uma cena preocupante. Tipo quando meu pai estava assistindo a final do Paulistão de 2009 e o Ronaldo Fenômeno deu aquele corte seco e uma cavadinha encobrindo Fabio Costa. Olhei para o meu pai que é santista fanático e dei uma risadinha sacana. Os vizinhos santistas que estavam pela sala ficaram atônitos diante da maravilha de jogada que afundava de vez o time deles. E Ronaldo Fenômeno nunca mais irá jogar futebol profissional e nunca mais deixará ninguém de queixo caído ao ser surpreendido por um lance de genialidade. E ele também nunca mais será magro. E eu fiquei assim, paralisado, quando vi Maria Isis indo buscar bexigas d’água na base e Isadora indo atrás dela, só que com outro objetivo. Vi quando Isadora abordou Maria Isis e as duas começaram a conversar. Voltaram juntas em nossa direção, sem pressa, apenas caminhando e conversando. Enquanto isso eu estava ali feito aquelas cenas de filmes guerra. Quando o mocinho corre num super slowmotion e a guerra explode atrás dele. Ainda bem que a guerra aqui era de bexigas d’água. E eu estava apenas parado pensando no que eu iria fazer. Resolvi ter certeza do que havia acontecido. Quando Maria Isis se aproximou eu dei-lhe um abraço. Ela se desvencilhou de mim e disse “você beijou aquela menina!”. Respondi afirmativamente com a cabeça. Ela se afastou e foi-se embora me deixando sozinho no meio da guerra. Ainda me acertaram uma bexigada na testa que explodiu me molhando todo. Mas tudo bem. Eu precisava de um pouco de água fria para esfriar a cabeça.

Aquela tarde foi cruel malandro. Voltei triste e me sentei numa cadeira de piscina próximo aonde estavam meus pais. Meu pai me viu sozinho e foi lá bater um papo comigo. A gente não conversa muito, mas ele sempre percebe quando estou triste. Contei que eu tinha beijado a outra menina que foi lá e contou pra Maria Isis e que eu me fodi. Isso é uma coisa que sempre vai acontecer na minha vida. Fazer merda quando o assunto é mulher e me foder no final. “Essas coisas acontecem meu filho. Mas se você está gostando dessa menina, vá atrás dela. Não quero te lembrar, mas você só tem 2 dias. Quer uma cerveja?” me ofereceu.

Eu aceitei a cerveja e fui ao meu plano de reconquista. Isso é algo que terei de fazer bastante na minha vida. Reconquistar.

Deixei o futebol de lado. Tomara que o bigode tenha ganhado dessa vez. Comprei uma garrafa de água e segui a programação que era uma sessão de dança. Lá estava ela com aquelas calças coladas ao corpo de fazer ginástica. Era a coisa mais linda vê-la dançar e eu me sentei num degrau bem na frente dela e ali permaneci durante essa uma hora olhando para seus olhos. E também para o seu corpo, o seu rebolado. Estava realmente excitado com aquela imagem. Muito mais agradável do que jogar bola. Acho que ela não estava gostando muito pois me olhava furiosamente. Parecia que queria me matar com seus olhos brilhantes. Eu sorria e ela bufava. Ela suava e eu lhe oferecia água. Ela recusava e dançava de um jeito tão sexy. Acho que foi o dia que ela dançou com plenitude em sua vida só para me mostrar o que eu perdi. Mas quando a gente sente a conexão com o amor, sempre resta uma esperança.

Quando a sessão de dança acabou ela passou por mim e eu disse “é lindo te ver dançar”. Acho que a minha cara de pau a deixou nervosa. Ela parou, me olhou, se virou e foi embora.

Fiquei ali arrebentado. Ainda tive o desprazer de ter que ver a tal da Isadora passar por mim com sorriso cínico na cara. Pensei em pedir ajuda pra alguém, mas não. Esse tipo de coisa a gente resolve sozinho. Fui pro chalé e tomei um banho gelado. Essa noite era o famoso jantar do planeta, ou do mundo, sei lá. Uma parada bem brega, mas com uma culinária divina de diversas escolas gastronômicas do mundo. Coloquei uma roupa decente e fui para hall do hotel e fiquei ali um tempo interminável esperando por Maria Isis. Pude conversar com uma das “tias” da recreação e me abrir com ela. Ela me contou coisa sobre as mulheres. Me deitei no colo dela também. “Saí daqui menino! Não posso fazer carinho em hóspede.“ falou. “Pô não me rejeita. Já fui rejeitado hoje.“ eu disse. Ela riu e me contou algumas histórias sobre os hóspedes. No fim eu falei “Pô pergunta pra Maria Isis. ‘Cadê seu namoradinho?’ pra vê o que ela fala.”. Ela riu disse que ia pensar no meu caso.

Passaram os meus pais, os vizinhos, minha irmã, a bela vizinha de 14 aninhos e nada de Maria Isis. Disse que ia esperar ela pra jantar.

Era desesperador ficar ali esperando, mas eis que ela apareceu. Junto de sua família. Abordei ela no meio deles sem nem pensar que por um acaso ela tivesse contado a merda que eu fiz pra eles. “Eu queria conversar contigo.”. Ela disse para os pais que já ia jantar e ficou ali pra falar comigo, porém foi curta e grossa “olha eu não tenho nada pra falar com você. Você beijou aquela menina ridícula. Eu não quero conversar agora”. Eu me surpreendi com o seu jeito seco e fiquei sem ter o que falar. Passou alguns segundos e ela disse “Posso ir jantar com a minha família?“. Acho que meus olhos marejaram pois ela me olhou de outra forma, mas mesmo assim seguiu seu rumo.

Ainda consegui serrar um cigarro antes de ir jantar. O infeliz fumava free, mas pra quem não tem nada e nem dinheiro para comprar um maço, um free estava de bom tamanho.

Logo acabei o cigarro. O atirei no chão e pisei em cima. Depois fui ver que tinha um cinzeiro coletivo para os fumantes próximo a mim. Mas estava tão transtornado que acabei deixando a bituca por ali mesmo. Caminhei arrastando os pés até o salão aonde estava acontecendo o jantar. Era imenso. Estava todo colorido na maior felicidade brega enquanto eu estava ali desolado, numa tristeza só. Peguei meu prato e me servi de comida italiana e árabe. Olhei para as mesas e todas estavam lotadas de famílias. A da minha família e vizinhos não tinha mais lugar vago. Peguei meu prato, minha bandezinha, meu refrigerante e fui me sentar sozinho numa mesa. Mastigava devagar sem querer engolir a comida que estava ótima por sinal, mas com um gosto amargo de desilusão amorosa quando fui abordado por um par enorme de peitos. “E aí meu. Ta sozinho aí? Cadê a Maria Isis?”. Meus olhos lacrimejaram novamente, mas vi ali a esperança. Talvez a amiga dela a convencesse parar e conversar comigo. Então exagerei no drama “Tô na merda. Eu fiz merda na verdade. Ontem ela foi dormir e eu fiquei até mais tarde e aí a Isadora veio e me beijou. Daí hoje ela foi lá e contou pra Maria Isis. Mas pô eu tô gostando dela pra caramba. Fiquei todos esses dias perto dela e nem um beijo sequer ela me deu e agora não quer mais falar comigo por causa disso.”. Ela me olhou como se eu fosse um filho da puta, mas ao mesmo tempo com dó desse filho da puta e disse “Eu vou trocar ideia com ela.”. Eu sorri e ela sorriu. Desejei um bom apetite e ela e seus peitos foram jantar com a família. Terminei minha refeição ali sozinho. Demorei um tempão para jantar. Olhava algumas mesas que haviam casais em lua de mel. Os rapazes felizes da vida com sua amada ao lado e ficando tentando imaginar qual a história desses casais. Como eles se conheceram? Será que sempre foram felizes? Será que já rolou umas merdas pelo caminho? Enfim, me cansei de ver a felicidade dos outros e resolvi me retirar do recinto.

Ao sair desci pelo corredor sentido ao hall do hotel. Não sabia ao certo para aonde eu iria. Só queria andar e andar por aí. Talvez eu fosse conversar com a lua. “Ei você ainda quer conversar?”. Ouvi uma voz e pensei “É você lua?” mas quando me virei percebi que era o satélite do meu coração. Ela que ilumina as minhas noites. “Claro” eu respondi. Vi ao fundo a garota dos peitões. Sorri para ela em agradecimento.

Maria Isis saiu andando e fui indo atrás dela. Ela andou bastante sem dizer uma só palavra e eu fui indo atrás dela. Do nada ela parou num lugar escuro, ao meio de vários chalés. Ainda assim seus olhos cintilavam com o luar que passava por entre os galhos das árvores. Ficamos nos olhando por algum tempo. “E aí… não vai falar nada?“ ela perguntou. Na verdade eu não tinha pensado em nada para falar e nem sabia o que dizer “Eu tô gostando de você. Eu quero ficar contigo.”

Ela me olhou com desconfiança “Mas então por que você beijou aquela menina ridícula?”.

“Mas foi ela quem me beijou.” Me defendi. “Mas você aceitou.”

Resolvi abrir o leque da sinceridade. Na verdade eu não resolvi nada, foi livremente espontâneo. Mas nada como a sinceridade para ganhar a confiança de uma mulher. Por mais que isso soe redundante. “Aceitei, claro. A mina veio me beijar. Eu ia fazer o que? Só quero que você lembre que minutos antes você recusou meu beijo.”.

“Mas é só isso que você quer? Me beijar e pronto?”. Mulher sempre precisa de comprovação. Mesmo ela sabendo que o cara está na dela.

“Claro que eu quero te beijar! Meu eu tô desde sábado a noite junto de você. Passamos o domingo todo grudados. Mesmo tendo acontecido o que aconteceu ontem, hoje eu nem olhei pra cara daquela mina porque eu quero você. Fiquei do teu lado mesmo depois de ela ter te contado o que aconteceu e você ter virado as costas pra mim sem nem deixar eu me explicar. Fiquei te olhando dançar, te esperei pra jantar, fui atrás de você pra gente conversar…. tu acha que eu quero o que contigo?”

Ela passou a mão pelos cabelos e disse um “tá…” bem baixinho.

“’Tá’? ‘tá’ de ‘tá bom’? Eu posso te abraçar e te dar um beijo?” e já fui abraçando ela. “Calma, peraí” disse fugindo com a cabeça para trás, mas já em meus braços. “Tá bom.” Disse ela e me beijou.

Aquele beijo durou alguns meses. Eu nunca mais viverei uma história de amor na juventude, muito menos com uma garota que conheci no grupo dos jovens de um hotel fazenda. Também nunca poderei mudar o que aconteceu depois desse beijo até os dias de hoje. Mas nunca mais me esquecerei dela e nem do sabor do seu beijo, nem do calor do seu abraço e muito menos do brilho que pairava pelo seu olhar sob o luar quando eu a acompanha até o seu chalé. Guardei uma foto nossa de recordação.

Tive de apagar um comentário que postei no facebook pois dois amigos ficaram chateados comigo. Chateados de verdade, chegando até a me xingar. Não tenho culpa se a carapuça serviu.
Mas esses amigos eram amigos mesmo! De verdade. Só amigos, sem classificação alguma. Daqueles que a gente larga tudo que está fazendo e se mete na maior roubada por eles. Daqueles que fazem a gente frequentar pagodes e funks só para estarmos juntos deles. Daqueles que a gente comparece numa peça de teatro de escola da pior qualidade só para vermos seus olhos brilharem ao nos darem um abraço na saída do espetáculo, felizes com a nossa presença.

Eu gostava tanto deles que me senti culpado pelo que escrevi, mesmo sendo o meu pensamento mais real e verdadeiro. Me lembrei então que uma vez conversava com meu amigo Diego Chilio, que também é um desses amigos sem classificação, e ele disse que eu era falso com ele pois eu não me abria, não falava o que eu sentia. E eu dei de ombros pois sabia que de certa forma ele tinha razão. E eu preferia ser falso com os meus amigos. A verdade dói e nenhum amigo merece isso. Amigos merecem mentiras. “Mentiras sinceras” como as de Cazuza.

Porém nem sempre eu fui assim. A verdade já me custou muito na vida. Já perdi amigos e algumas mulheres por causa das verdades. Algumas mulheres por causa das mentiras, que depois de um tempo viraram verdades. Mas outro dia ouvi uma frase muito boa: “Eu não minto, eu camuflo a verdade.”

Desde então resolvi que minha vida ia ser na mentira, assim como a de João Grilo. Só que eu não sou João Grilo e nenhum personagem de livro. Estou na vida real e controlar o nosso psicológico é muito difícil. Eu sempre tentei não esperar muito de ninguém, nem dos meus amigos. Mas devo confessar que às vezes a vida vira uma merda tremenda e eu começo a me afundar numa crise existencial e tudo foge do controle. Frases que algumas pessoas me disseram começam a martelar na minha consciência. Frases verdadeiras de pessoas que gostavam de mim de verdade. Como por exemplo: “Você vai no aniversário de todos os seus amigos, vai em tudo que todo mundo chama. Quero ver se todo mundo vai quando você chamar”.
Essas frases começaram a me sufocar e a me jogar contra outras pessoas que eu gostava. A vida virava um julgamento eterno. Esses dias mesmo uma amiga que estava dividida entre dois irmãos, dizia que tinha ficado com um deles, mas que numa reunião de amigos acabou trocando carinhos com o mais velho deles e ficou com vontade de beija-lo. Pediu minha opinião e eu soltei o caminhão sem freio. A resposta dela foi a seguinte: “Não dá pra falar sério contigo”.

Frequentemente entro num conflito comigo mesmo se devo falar sério com as pessoas ou se devo ser o sujeito engraçado que todos esperam que eu seja. Mas às vezes reclamam que eu nunca falo sério, e quando eu falo sério as pessoas dizem isso.

Bom, já me perdi nos pensamentos, então vamos aos fatos. Uma mulher que muito admiro me convidou para produzir uma sessão de meditação no espaço que ela possuí perto de minha casa. Aceitei na hora. Porém quando comecei a convidar os amigos me deparei com algumas respostas interrogativas iguais: “Tem que pagar?”. Isso me incomodou bastante e cheguei a comentar a tal mulher que eu admirava, que me disse: “É complicado. É sempre difícil produzir essas coisas. As pessoas preferem gastar dinheiro no bar do que na busca do autoconhecimento”. Compartilhamos dessa tristeza juntos, mas rimos quando eu propus uma “meditação open bar”.
Essa semana andei convidando meu pessoal para uma mostra de cinema de curta-metragem onde será exibido o Pise Fundo Meu Irmão que eu dirigi. E também para uma exposição de algumas fotos de minha autoria. Uma boa porcentagem das pessoas que eu perguntava se estavam afim de comparecer respondiam interrogativamente: “Tem que pagar?”. Comecei a ficar com vontade de responder impropérios como “Não, tem só que chupar meu pau quando estiver passando meu filme ou depois de olhar a minha foto”. Acho que meus amigos nunca assistiram Chaves para aprender que é falta de educação responder uma pergunta com outra pergunta.

 

Resolvi desabafar no muro das lamentações. Postei um pequeno texto no facebook:

“ Você convida o pessoal pra ir numa exposição, para assistir uns filmes numa mostra de cinema ou para meditar e o cabra responde: “Tem que pagar?“.

As pessoas só querem gastar dinheiro com cigarros e bebidas.”

Alguns segundos depois de eu ter destilado a minha verdade comecei a receber mensagens de um amigo me chamando de filho da puta e dizendo que fazia o que ele quisesse com o dinheiro dele e que não iria comentar a porra do post. Fiquei muito triste com isso e me senti culpado por a carapuça ter servido nele. Ele era muito meu amigo. Não tinha escrito diretamente a ele, mas ele se sentiu julgado. Tentei ligar e ele não me atendeu. Mandei mensagens pedindo desculpas e dizendo que eu amava ele, que ele era meu brou.
Alguns segundos depois mais uma mensagem de uma amiga dizendo que eu era ridículo e que eu vivia propagando que a arte deveria ser de graça. Não sei de onde ela tirou isso. Mesmo porque eu trabalho com arte e quero ter o devido reconhecimento e receber por isso. Claro que um show de graça bancado pelo governo é super válido, mas pagamos impostos para que a maioria desses shows abertos aconteçam. Então nem tudo que é de graça, saiu barato. Mas como estou cansado de discutir política e nem sei o bastante para ficar falando. Talvez tenha até escrito merda aqui. Mas voltando a minha amiga. Li aquela mensagem meio indignado e só pude responder: “Eu paguei pra ir na sua peça de teatro”.

 

Mas comecei a ficar com medo de magoar alguns amigos e resolvi apagar o que havia escrito do facebook. As pessoas não estão preparadas para a verdade. Talvez da próxima vez que eu me encontrar com meu amigo Diego Chilio eu consiga lhe explicar porque eu sou falso com ele e com todos os meus amigos. Acho que vou voltar para a minha vida de mentiras pois a verdade não me leva a nada. Talvez eu deixe de escrever, pois eu só consigo escrever verdades. Às vezes eu penso se um dia terei de escolher entre os meus amigos e mulheres ou a minha carreira de escritor.

 

Sabe de uma coisa. To cagando pra todo mundo. Vou pro bar sozinho gastar meu dinheiro em bebidas e cigarros e descolar mais uma história pra contar.

VITOR – E ae!

PÂMELA – Hey

V – Ho! Let’s go!

P – Let’s nessa!

V – Qual o moio?

P – Qual o pé do frango?

V – O que me diz? Nada pro nariz? O que me conta? Nenhuma ponta?

P – Deixa eu brincar de ser feliz. Deixa eu morder o seu nariz. Qual é? Qual foi? Por que que tu tá nessa?

V – Que o que o que rapá?

P – Pau que nasce torto nunca se indireita.

V – Pau que nasce torto mija fora da bacia. E menina que requebra não requebra com a cabeça. Dududududud bah tchan!

P – Ela tá dançando e o pimpolho tá de olho.

V – Cuidado com a cabeça do repolho.

P – Quanta merda! Meu mal é o sono e o seu?

V – Vou escrever no meu blog. O nome do texto vai ser “Conversas com Pâmela Galvão”

A vida é engraçada. Somos obrigados a estudar diversas matérias que não é de nosso interesse hoje em dia, num sistema de ensino regrado, com professores que nem sempre estão motivados para dar aulas e frequentemente entram em greve. A matéria de história muitas vezes é didaticamente deturpada pelos livros e pelos professores. Filosofia então…

No meu caso eu tive um professor de filosofia no colégio que era candidato a vereador pelo Partido dos Trabalhadores (PT). Eis aí um grande debate que entrou para a história da E.E. Professor Manoel Ciridião Buarque. Fiz meus quatro anos de colegial tendo matéria de filosofia sem fazer a mínima noção de quem era Sócrates, Platão, Aristóteles, dentre outros que só fui conhecer quando resolvi estudar através de livros para recuperar o tempo perdido no colégio e na faculdade. Porém aprendi muito sobre o PT, porém já tinha idade mental suficiente para questiona-lo sobre o tal do “Mensalão” que ocorrerá nessa época. Os debates eram alucinantes, e culminou com uma nota 0 em uma prova na qual ele pediu para os alunos defenderem um ponto de vista sobre um determinado tema. Não me lembro qual tema eu defendi, mas como não entendia nada de filosofia, resolvi discursar através da escrita, algo que explicasse a minha visão sobre o determinado tema. Anos depois fui ao Teatro Oficina ver Zé Celso encarnar Sócrates e discursar sobre o amor.

Lembro que após receber a prova, alguns amigos tiveram que me conter, pois eu queria agredir o petista filha da puta. Porém ali aprendi, mesmo que sem saber, que eu entendia de filosofia. Matéria que ando usando bastante em mesas de bares e pra levar garotas para cama. Talvez seja a matéria mais importante que eu não aprendi no colégio.

 

Hoje em dia não consigo mais parar para meditar e filosofar sobre a vida, pois minha mãe resolveu me presentear com um smartphone da marca HUAWEI, o que me faz passar vergonha frente aos meus amigos por eu não ter um Iphone 5. Preferia antes quando eu era cult por ser o único da turma a manter o velho celular que só ligava e recebia ligações e mandava torpedo SMS. Nem o jogo “Snake”, aquele da cobrinha, meu celular tinha.

Agora modernizado e com whats’app minha vida começou a perder o sentido. Passo o dia a ler e responder mensagens dos meus amigos do grupo “Ciriguelas”. Quando eu percebi que estava igual os idiotas que eu condenava que andam de metrô com o celular na mão, propus um encontro “das antigas” num boteco sujo qualquer. Claro que meus amigos não quiseram me acompanhar nos bares depressivos do centro da cidade e fomos parar no Birutas comendo pastel. Quer dizer, eu pedi o lanche À Moda Manzola com bastante maionese. E começamos a beber.

Estávamos lá eu (Cotô), Japa, Negão, Gordinho, Preto, Johnnie e o Esquilo (o Cachaça, o Torresmo, o Anão, o Floquinho, Foca e o Alemão não puderam vir por motivos pessoais, profissionais ou porque as respectivas mulheres não deixaram). E o papo começou com uma fofoca da brava…

NEGÃO – Cara, fiquei sabendo que a Alice do colégio está gostando de mulher!

 

COTÔ – Pô daora! Mas ela está um pouco gorda. “A vida é muito curta para dançar com gordas” diria o pai do Hank Moody.

 

NEGÃO – Mas ela era gatinha.

 

GORDINHO – Quem é essa mina?

 

PRETO – Cadê foto dela com mulher?

 

JAPA – Quero vê foto dela chupando buceta.

A galera cai na gargalhada. O Japa era um cara engraçado e fumei muita maconha com ele no colégio. E compartilhávamos o mesmo espírito mulherengo.

GORDINHO – Vixi nem to lembrando… Quem é essa mina aí?

 

ESQUILO – Que falta de personalidade da porra virar sapatão.

 

Negão saca do celular e mostra a foto da Alice na roda.

 

GORDINHO – Ah eu lembro dessa mina. É gata!

 

NEGÃO – O Johnnie já pegou.

 

Negão adora uma fofoca. Outro dia mesmo disse que o Jô Soares havia morrido. Todo mundo no bar acreditou. Tomamos um porre em homenagem ao gordo e no dia seguinte publicaram uma nota dizendo que o Jô recebia alta do hospital.

 

PRETO – Mas olha, ouvi dizer que a Alice começou a curtir mulher depois que ficou com o Floquinho e com o Johnnie.

 

A galera cai na risada. Johnnie é um cara legal. Mais legal do que o da música do Legião Urbana.

 

JOHNNIE – Vai se foder seu macaco do caralho!

 

Entre amigos o preconceito é válido na hora de xingar. E foda-se os politicamente corretos.

 

COTÔ – É bom comprovar as informações do Negão pois semana passada ele matou o Jô Soares.

NEGÃO – Tá, a do Jô Soares foi foda. Meu tio que falou a parada. Mas voltando pra Alice, sei lá, eu comeria ela de qualquer jeito.

 

GORDINHO – Eu também.

 

Gordinho com gordinha dá empate. O Gordinho era uma cara folgado como todos nós éramos. Acho que era o instinto da sobrevivência num colégio estadual. Se você for magrela é bom que seja folgado pra não precisar sair na porrada. E se for gordinho seja folgado pra não sofrer bullying.

 

PRETO – Tô vendo as fotos aqui. Não parece estar gorda.

 

NEGÃO – Eu também não acho ela gorda. Acho ela uma delícia.

 

GORDINHO – Qual o nome completo dela? Vou procurar no facebook.

 

JAPA – Gorda é igual buceta gorda.

 

NEGÃO – Eu gosto de carne.

 

JOHNNIE – Na minha opinião ela deu uma engordada sim, mas não tá zuada.

 

JAPA – Tá fofinha.

 

COTÔ – Olha, não querendo denegrir a imagem da ex-mulher dos camaradas. Mas a Alice é a mina que ia com a calça jeans enfiada no rego.

 

PRETO – Denegrir a imagem da Alice? Mas do que ela se denegriu no Ciridião?

 

NEGÃO – Ela namorou o Orlandinho, amigo do Snoop Dog.

 

Orlandinho era um maluco não muito provido de beleza física que andava junto com um cara que parecia o Snoop Dog.

 

COTÔ – E namorou o Gilóca que apanhou do Formiga. E cá pra nós, apanhar do Formiga é brincadeira.

 

NEGÃO – Olha se ela ainda gostar da fruta eu meto o pau nela. Desculpa pra quem namorou com ela.

 

ESQUILO – Ela até deflorou nosso amigo.

Esquilo era um sujeito que fazia uns comentários bem interessantes. E conseguiu a proeza de rachar a cabeça na parede após anunciar embriagado no meio de um churrasco que iria demonstrar um passo de dança. Mas seu apelido é Esquilo pois durante um jogo de mímica ele imitou o esquilo do filme “A Era do Gelo” com tamanha perfeição que nunca mais nos esquecemos disso.

 

GORDINHO – Como é o nome dela na porra do face?

PRETO – Alice Damaceno. Mas ô Cotô, você não pega não?

 

NEGÃO – Lógico que o Cotô pega. Já pegou tanto trabuco na vida.

 

PRETO – Cheia de carne mano.

 

GORDINHO – Enfio a rola nela e em vocês.

 

JOHNNIE – Vai se foder seu gordo!

 

COTÔ – Já tenho muita gordinha no currículo. Tem até umas obesas.

 

NEGÃO – Vamos parar de falar dela que o Johnnie vai chorar.

 

JOHNNIE – Vai se foder seu macaco!

 

GORDINHO – Caraio Japa, ela conhece o Xoxão.

 

PRETO – Ela deve ter um xoxão.

 

ESQUILO – Um xoxão raspadinho.

 

COTÔ – O legal das gordinhas é praticar a posição papai/mamãe. É confortável ficar por cima delas.

 

ESQUILO – E a chupeta também!

 

NEGÃO – Eu gosto de gordinha. Dá pra agarrar bem forte.

 

COTÔ – O Negão é o tarado cadeirudo daquela novela “A Indomada”.

 

JOHNNIE – Tarado cadeirudo é foda!

 

GORDINHO – Porra não tenho ela no face, mas tem trinta amigos em comum.

 

NEGÃO – Caralho… A Alice… Mó corpinho que arrasa indo pro outro lado.

 

ESQUILO – “Corpinho que arrasa”? Que comentário gay maluco! Chupa meu ovo!

 

PRETO – O Negão indo pro outro lado também.

 

JAPA – Tá tipo Vera Verão.

 

COTÔ – Eu ainda acho que a gente deveria ter ido beber no centro e caçar umas mulheres doidas.

 

PRETO – Devemos mesmo é ir na casa do Japa que vai casar e não quer fazer despedida de solteiro.

 

NEGÃO – Vamos falar de outra mulher. E essa aqui em Cotô?

Negão mostra a foto de Amanda no celular. A minha paixão do colégio. Todos riem.

 

COTÔ – Vai tomar no seu cu largo!

 

NEGÃO – Não chora não Cotô.

 

PRETO – Os caras mexendo com amores aqui.

 

ESQUILO – Dedo na ferida.

 

COTÔ – Vamos falar de mulheres e não e amores caralho. Mexer com essas coisas não é certo. Se não vou começar a falar da Camila e o Negão não vai gostar.

 

Gargalhada geral. Preto mostra a foto da Camila.

NEGÃO – Vai te fudê porra!

Negão pega o celular a apela mostrando uma foto da minha irmã.

 

JAPA – Caralho que gostosa e sua irmã Cotô!

 

GORDINHA – Manda o facebook dela pra mim.

 

COTÔ – Vão te foder caralho!

 

PRETO – Mas pra zuar o Cotô é essa aqui.

 

Preto mostra a foto da irmã do Foca. Ela era pequena quando eu frequentava a casa dele. Alguns anos depois voltei lá e ela havia crescido. E como havia crescido…

 

GORDINHO – Aí é mancada. O cara nem está aqui pra se defender.

 

PRETO – Tô brincando.

 

NEGÃO – Que cuzão!

 

JAPA – Que gatinha a irmã do Foca.

 

COTÔ – Não vem não seu japonês safado. E vamos respeitar meu cunhado que não está presente.

 

ESQUILO – O Preto está só de boa aí. Mas se liga nessa mina aqui.

Esquilo pega o celular e mostra a foto de uma “cabecinha de gato” que estudou no colégio com a gente.

 

GORDINHO – Você pegou Preto?!

ESQUILO – Deus não é padrasto não.

 

COTÔ – Pegou? Namorou!

 

NEGÃO – Nossa Preto!

 

PRETO – Foda… Eu e uma galera da quebrada.

 

COTÔ – A vizinhança toda.

 

NEGÃO – Cansadíssima!

 

GORDINHO – Era gostosa. O foda era o sotaque.

 

COTÔ – Era gostosa lá na Bahia.

 

Negão saca do celular novamente e mostra a fodo da mina mais nerds do colégio.

NEGÃO – O Cotô pegou essa aí.

 

Para os meus amigos eu peguei todas as mulheres do mundo. Inclusive as irmãs deles.

 

COTÔ – Cara eu nunca peguei essa mina. Mas vou te dizer que hoje em dia eu pegaria fácil. O problema é que ela não me dá mole pois eu cometia bullying ela. Bem que eu queria bolina-la denovo.

 

PRETO – E essa aqui Negão. Quando você pegou ela não era assim.

 

Preto mostrou a foto de uma mina muito gata. A Dalila. Porém na época do colégio ela era um tanto obesa. Então o ditado do pai do Hank Moody caí pelo chão. Dance com as gordinhas pois elas podem emagrecer.

 

NEGÃO – Quem é essa? A Dalila?

 

COTÔ – Caralho!

 

NEGÃO – Olha o Cotô de olho.

 

COTÔ – Ex-gorda a gente aceita.

 

GORDINHO – Caralho! Não lembro dessa não. Tem facebook?

 

NEGÃO – Poucos lembram…

 

GORDINHO – Era do colégio?

 

NEGÃO – Sim. Amiga da Aline.

 

JOHNNIE – Aline é ex-namorada do Foca.

 

COTÔ – Vou te dizer que essa mina derrubou mais gente no churrasco do Monstrão do que os amigos deles.

Monstrão era um amigo nosso. Um cara meio esquisito que ficou gago após servir o exercito. Uma vez rolou um churrasco de aniversário dele e saiu um quebra pau por causa da fimose do Foca e a gente levou um pau dos caras que faziam faculdade com o Monstrão. Mas antes disso a Dalila derrubou alguns…

 

GORDINHO – Era matadora então.

 

COTÔ – A gordinha era terrorista!

 

JOHNNIE – Enfiaram a língua na coitada.

 

NEGÃO – Todo mundo negou na época.

 

COTÔ – Eu nego até hoje pois fui o único que não peguei. Estava namorando na época.

 

Nesse momento chega no bar o Anão. Como o próprio apelido diz, ele era o baixinho da turma e sempre vinha com seus papos sérios de doutor advogado. Mas no bar ele era réu.

 

ANÃO – Que tá rolando aqui?

 

COTÔ – Pega mais umas 5 brejas e senta aí que tu é réu.

 

ANÃO – Caralho! Os cara é foda!

 

Anão foi buscar as cervejas no balcão enquanto o papo continuava.

 

PRETO – Esse churras do Monstrão foi lendário.

 

NEGÃO – Eu vou confessar que dei uns beijo mémo. Mó gordinha fat!

 

GORDINHA – Gordinha fat é foda.

 

COTÔ – O Anão também.

 

ANÃO – Eu também o que?

 

GORDINHO – Passou a mão na gordinha matadora.

 

COTÔ – Pegou a Dalila.

 

ANÃO – Caralho! Cheguei agora e já sou acusado.

 

NEGÃO – É… uns caras pegou aí…

 

ANÃO – Se eu não lembro, não peguei.

 

GORDINHO – Eu não.

 

PRETO – Ela era a mais zuada naquela época.

 

JOHNNIE – Mas agora a mina ia ser disputada hein.

 

GORDINHO – Acho que não era da minha época se não eu pegava também.

 

NEGÃO – Mas ela era gorda demais!

JOHNNIE – Vamos fazer um churrasco e convidar ela.

 

COTÔ – Tem um malandro aí que adora gordinha e que nega até hoje…

PRETO – Se jogar isso na roda metade da mesa vai achar que é indireta.

 

GORDINHO – Os caras fala demais.

 

PRETO – E ninguém zuou o Japa.

 

JAPA – Eu não peguei essa Dalila não.

 

COTÔ – Claro que zuaram. Não falaram da Camila na roda?

 

JAPA – É eu peguei a Camila… Desculpa Negão.

 

COTÔ – É eu chupei até os peitinhos na escada do seu prédio. Foi mal Nego.

 

GORDINHO – Caralho! Até eu peguei a Camila.

 

NEGÃO – Vão se foder todos vocês!

JAPA – O Gordinho pegou a Camila quando ela tinha 11 anos e ele 18.

 

GORDINHO – Faz tempo isso hein…

 

PRETO – Caraio. Aí é pecado.

 

GORDINHO – E depois peguei a irmã dela.

 

NEGÃO – A irmã da Camila é cavala hein.

 

PRETO – Não dala da irmã da Camila que o Anão chora.

 

ANÃO – Sobrou pra mim de novo.

 

COTÔ – É por isso que eu falo pra não falarmos de amores. Pelo menos a minha só eu peguei.

 

NEGÃO – Cotô. Se tá querendo atingir quem com esses seus comentários filosóficos?

 

PRETO – Vixi o papo tá ficando sério. Acho que vou pra casa dormir.

 

GORDINHO – Verdade. Melhor a gente vasar.

 

JOHNNIE – Aquele abraço rapazes.

 

ESQUILO – Orra! Chamou a mãe de puta.

 

JOHNNIE – E o pai de macaco!

 

COTÔ – Relaxa aí rapaziada. Pô eu te amo Negão. Tu é meu brother. Pede pra descer mais cinco?

 

ANÃO – Vou lá pegar.

 

NEGÃO – O cara quer pegar minha irmã e fica nessas putices.

 

COTÔ – Pior que eu quero.

 

NEGÃO – Cuzão!

 

JAPA – Tem foto da irmã do Nego aí?

 

NEGÃO – Que porra de foto.

 

JAPA – Por gentileza.

 

GORDINHO – Também quero ver agora.

 

JOHNNIE – É só falar da irmã que o cara ficou putinho.

 

JAPA – Vai mostra a foto aí.

 

COTÔ – Mostra foto porra nenhuma. Essas paradas de mostrar foto da mulher dos outros não dá certo.

 

GORDINHO – Relaxa Cotô… Só pra dar uma avaliada.

 

COTÔ – Vai avaliar mulher dos outros. As minhas não.

 

JOHNNIE – Já está assim Negão?

 

GORDINHO – Mas não fala muito não Cotô que vários caras pegam a sua irmã. Inclusive eu.

 

 

JAPA – Eu por enquanto só bronha pra ela.

 

ANÃO – Bronha é foda!

 

JOHNNIE – Mancada.

 

ESQUILO – Tem pelo na mão esse maluco.

 

COTÔ – Tem boceta é pra dar, porra. Se eu pudesse eu comia também. Minha irmã é mó gata.

 

NEGÃO – Caralho Cotô!

 

GORDINHO – As idéia do Cotô.

 

JAPA – Só não pode fazer filho.

 

Negão saca do celular novamente com mais um assunto pra mesa.

 

NEGÃO – Essa mina eu achava da hora!

 

GORDINHO – Gabizinha… Essa sim era gata!

 

JAPA – Era zuadinha na época. Não sei hoje.

 

COTÔ – O Japa queria pegar a gordinha, mas acha zuada a gostozinha. Tá tirando esse maluco.

 

JAPA – Eu quero é saber da foto da irmã do Negão.To no aguardo aqui.

 

ESQUILO – O cara levou a sério a irmã do Nego.

 

Preto saca do celular com a foto da Lolo. Essa era mito do Ciridião.

 

PRETO – E essa aqui? Quem lembra?

 

ANÃO – Pegou pesado agora.

 

JAPA – Credo!

 

ESQUILO – Brochei…

 

JOHNNIE – Prefiro a Aline gorda e lésbica. Já sentou em todas pirocas e agora partiu pra outra.

 

NEGÃO – Pelas evidências sim.

 

ANÃO – Mas a Gabizinha era outro nível.

 

JAPA – Outro nível é a irmã do Negão.

 

NEGÃO – Vai se foder seu pinto pequeno do caralho.

 

COTÔ – Esse Japonês quer furar meus zóio.

 

JAPA – É um ciclo que se renova. Todos furamos.

 

JOHNNIE – Vocês não valem uma pipoca.

 

ESQUILO – E a pipoca tá cara.

 

JAPA – O Cotô pegava sem dó mano. Qualquer uma que tinha vagina. Até a diretora que mancava ele deve ter pego.

 

JOHNNIE – A ponta e vírgula?

 

ANÃO – Aí é mancada.

 

ESQUILO – Até a tia Rose, vulgo Roque do Silvio Santos, escapou dele.

 

JOHNNIE – E a professora de Geografia?

 

ESQUILO – Passou o mingau na geral.

 

JAPA – O Cotô era foda mano. Mito!

 

NEGÃO – Cotô mito!

 

JAPA – Grande guerreiro!

 

PRETO – Um brinde ao mito!

 

COTÔ – Os caras são foda!

 

Todos brindam. A maioria das histórias que contavam ao meu respeito era mentira. Mas algumas eram verdade. Fiz a fama, agora fodeu. Porém melhor é pegar geral, inclusive a irmã dos outros, do que não pegar ninguém.

 

ANÃO – Pegou a Inês fazendo cagada.

 

COTÔ – Cara eu queria pegar era a diretora, a Marlene.

 

NEGÃO – A loirona, né?

 

JAPA – Olha o Nego que safado. De olho na diretora também.

 

COTÔ – Essa mesmo. Tentei uma aproximação via facebook, mas parece que não rolou. Talvez eu tenha sido muito mal educado com ela no colégio.

 

ESQUILO – To dizendo. Vocês são lixo! Dons bons, porém ainda assim, lixos.

 

NEGÃO – E o Cotô pegou a Marina também.

 

COTÔ – Quem é Marina que eu nem sei?

 

JAPA – Acho que é a Morena.

Marina, a morena. E que morena. Quando deu mole pra mim eu não pensei duas vezes. Depois fui saber que um amigo meu e também da rapaziada era apaixonado pela mina. Sabe como é: “Pipa no alto não tem dono”. Mas meus amigos pararam de falar comigo e eu tive que decidir entre comer a morena ou continuar a amizade com os caras. Pois sabe como é: “Fazer amizade é fácil. O difícil é manter”.

 

COTÔ – Podes crer… é verdade. Vocês pararam de falar comigo na época.

 

PRETO – Talarico.

 

ESQUILO – Cotô passou o martelo, né safado.

 

JOHNNIE – Safado!

 

JAPA – Ela tinha vagina, né mano.

 

COTÔ – Os caras são foda.

 

PRETO – O Cotô só não pegou o irmão daquela mina que dançava axé porque ele não tinha vagina.

 

ANÃO – É… virou traveco mas ainda não tem vagina.

 

GORDINHO – Mas de repente ele pode operar.

 

COTÔ – Eu só não peguei a namorada do Manoel.

 

JAPA – Não lembro.

 

COTÔ – Nem eu, pois eu tomei uns murros na cabeça.

 

ANÃO – Ah vá Cotô. Você pegou sim mano.

 

JAPA – Nossa aquela zuadinha. Mó vádia do caralho. Dava em cima de todo mundo e depois se o malandro não quisesse ela ia e falava pro namorado.

 

COTÔ – Pois é… e o cara lutava boxe.

 

JOHNNIE – Lutava pra caralho!

 

PRETO – Arrebentou o Cotô.

 

ESQUILO – Fez de saco de pancada.

 

GORDINHO – Moeu.

 

COTÔ – Mas quem pegou mesmo foi o Diego. E depois levou ela no meu aniversário.

 

ANÃO – Foda.

 

GORDINHO – Cuzão.

 

Agora quem chega é Torresmo. O apelido é porque o Negão ateou fogo no menino durante um churrasco. Foi sem querer, mas o apelido ficou.

 

TORRESMO – E ae manolos!

 

ANÃO – Salve Torresmo! Já pega mais cerveja pra gente e uma coca-cola pra você.

 

COTÔ – E libera um cigarro que o meu acabou.

 

GORDINHO – Caralho lembra quando o Negão tacou fogo no Torresmo?

 

JAPA – Podis crer!

 

ESQUILO – E depois apagou com tijolo.

 

TORRESMO – Vai te fudê.

 

PRETO – Foi foda!

 

NEGÃO – Deixa essa história pra lá que não vale a pena.

 

Torresmo pega as cervejas e sua coca-cola e senta a mesa.

 

JAPA – É vamos continuar falando das mulheres que o Cotô pegou.

 

ESQUILO – Passou o pepino na geral.

 

COTÔ – Eu só fiquei com a Amanda no colégio.

 

TORRESMO – Amanda do Euclides?

 

COTÔ – Eu nem estudei no Euclides.

 

TORRESMO – Mas pegou a Amanda Demonaizes.

COTÔ – Que porra de Demonaizes o caralho! Quem pegou ela foi o Roger.

 

ANÃO – É… mas deixa esse assunto pra lá que ele está namorando a irmã do Cachaça.

 

PRETO – Os caras são foda. Pega a irmã do maluco no aniversário surpresa do cara.

 

JAPA – Mas o Cotô é o rei do puteiro.

 

COTÔ – Rei do puteiro é o Foca que frequentava o bordel junto com o sogro.

 

TORRESMO – Eu já peguei umas duas zuadas, mas o Cotô é foda.

 

JAPA – Duas é pouca pro mito rei do puteiro.

 

GORDINHO – O Japa que fuma maconha e o Cotô que fica biruta.

 

ESQUILO – Qualquer vagina que respirasse era alvo.

 

JAPA – Saudades dos baseados antes do colégio.

 

COTÔ – O Torresmo tá de sacanagem comigo. Fica inventando história aí, mas ele que desfilava de mãos dadas com uma mina horrível.

 

TORRESMO – Ixi tá inventando…

 

JAPA – O Torresmo só teve um único amor: O Marlboro vermelho.

 

COTÔ – Namorou uma loirinha cheia de buraco na cara.

 

GORDINHO – A Monicão.

 

TORRESMO – Namorei? Só peguei por uma semana.

 

JOHNNIE – É isso é verdade Torresmo. Você andava de mãos dadas com ela.

 

ANÃO – E passava o intervalo sentado junto dela nos degraus do primeiro pátio.

 

COTÔ – Inclusive, depois trocou ela pelo Marlboro Vermelho.

 

TORRESMO – 90% dessa mesa aqui já pegou ela.

 

COTÔ – Eu não.

 

JAPA – Mas cara… Vou falar uma parada. Entre nós. O pior de todos foi o Fred.

 

ANÃO – Caralho que guela mano!

 

TORRESMO – Ciriguelas!

 

Acho que todos tinham pensado em soltar essa pérola do humor negro na mesa, mas é o ápice do politicamente incorreto e ninguém quer se comprometer. Mas são essas coisas que rolam nas rodas de amigos das mesas de qualquer boteco. O Fred era um maluco gente boa. Talvez um dos mais gente boa do colégio inteiro. Ele começou a namorar uma garota que também era uma das mais legais do colégio. Porém havia um problema físico com ela. Ele nascera sem o antebraço direito, deixando ela só com o cotoco. E também sem a mão esquerda. O que gerava criatividades para piadas do tipo: “Pô vocês ficaram sabendo da última? O Fred deu uma aliança pra mina dele”. E malandro, podem falar o que quiserem, mas na roda de amigos não se perdoa nada. E caímos na risada. Foda-se!

 

Depois dessa tivemos que pedir a saideira. Qualquer dia nos encontramos novamente em qualquer outro boteco da cidade para repetir as mesmas histórias de sempre. Pois a nossa amizade é feito o Chaves. A gente sempre ri ao assistir os episódios repetidos.

 

Voltei pra casa bêbado essa noite. E com pensamentos filosóficos sobre o legado do colegial. Saí de lá sem conhecer Sócrates, Platão e Aristóteles e sem saber o que era filosofia. Mas em compensação conheci “os caras” e aprendi pra valer o que é fazer uma amizade. Espero que um dia a gente consiga juntar todos numa mesma mesa de bar pra filosofar um pouco sobre isso.

Só sobrou o sol…

no céu.

Na minha mente

resta a sua imagem.

No peito…

um sentimento

que clama pela sua presença.

Que chama pelo teu corpo.

E que ama,

fazendo de você a única estrela

no meu céu obscuro.

Que abriga em meu coração

uma única lembrança…

Só sobrou seus beijos

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No filme “Frost/Nixon” (por mais que a direção e o roteiro possa ter fantasiado os fatos históricos) é possível ter a percepção do que é um duelo entre um político e um profissional da imprensa. O jornalista tem poucos minutos para tirar palavras de um sujeito que é treinado para não responder o que lhe foi perguntado de uma maneira longa (e viajante comparado a um sujeito que usou drogas pesadas durante a vida inteira, feito o mito, Serguei) e sem objetivo algum de conclusão enquanto vai citando no meio do “bololo” inúmeros fatos que não estavam em questão. O que faz gastar o tempo do indivíduo (no caso nós os eleitores idiotas que ficam discutindo e fazendo inimizades nas mesas de bares) que interrompe a sua refeição durante 15 minutos para prestar atenção nesses três patetas enquanto sua refeição esfria.

Então você aí do sofá que está chamando o William Bonner de ídolo. Contenha-se! Pois ele falhou na sua missão. Dilmão não respondeu porra nenhuma do que lhe foi perguntada. Já Patrícia Poeta, coitada… Não tem culhões para fazer uma entrevista dessa magnitude. Mas a tua beleza é estonteante.

Já eu irei procurar novamente a entrevista do mito, Serguei, concedida ao Jô Soares na qual ele não responde bulhufas do que o querido apresentador lhe pergunta. Mas eu sempre serei fã do Serguei, o cantor de “Eu Sou Psicodélico”. Afinal de contas… Quem nunca quis comer a Janis Joplin?

Sempre pensei em forjar a minha morte. Eis que decidi fazer dela algo real. Acovardei-me dando cabo de minha vida ao tomar a atitude mais corajosa que um ser vivo possa ter: o suicídio. Ontem às vinte e três horas e cinquenta e sete minutos enforquei-me com uma toalha amarrada ao banho box e por ali fiquei até às sete e trinta e oito da manhã. Ainda ouvia os pássaros cantarem a minha morte quando meu corpo foi encontrado por minha empregada. A expressão de susto que tomou conta de sua face foi um tanto engraçada. Agora o que seria de Maria? Traumatizada e sem emprego.

Já meu pai foi tomado pela tristeza ao reconhecer meu corpo no necrotério. Via-o chorar pela primeira vez na vida. Um cara frio e sem amigos que se dedicou a vida inteira ao trabalho. Talvez eu tenha sido o seu melhor amigo. Uma perda irreparável. Antes fosse, apenas, somente um filho. Seu rosto se contorcia em dor num choro sem lágrimas, parecido com às lágrimas de crocodilos tão convincentes de Marlon Brando ao interpretar Don Corleone chorando a morte de seu filho Sonny em O Poderoso Chefão. Ele fez que sim com a cabeça e saiu amparado pelo funcionário.

 

Algumas pessoas preparavam meu corpo já inchado para o meu velório e me vestiam de terno e gravata. Minha morte já começava triste assim como foi a minha vida. Deveria ter escrito um testamento, pelo menos para escolher o que eu iria usar na minha festa fúnebre. Queria também ter o poder de mudar esse ritual de merda que os cristãos fazem. Terno, gravata, algodão no nariz e na orelha, caixão e o nosso corpo num caixote com tampão sob um punhado de terra. Queria ter uma morte como a de Quincas Berro D’água, afundando-me nas profundezas dos mares, embriagado e recitando: “Cada qual que cuide do seu enterro. O impossível, não há. Sete palmos de terra, não vão me encarcerar. Vaguei-o ao sabor das ondas, no leito de espuma do mar. Nem no céu, nem no inferno, no mar é que eu vou morar…“

Agora, dentro de um caixão tampado, meu corpo era transportado dentro de um carro fúnebre rumo a algum cemitério. Estava tenso, não por ter morrido, e sim para saber como seria o meu velório. Sempre ficava assim em momentos importantes como aniversários, lançamento dos meus livros, e no velório não seria diferente. Esperei uma vida inteira para saber como seria esse momento. Eu roeria minhas unhas se ainda pudesse, num ato de extrema ansiedade pensando em quem iria, como seria a reação das pessoas, se iria estar cheio, quem iria carregar meu caixão, enfim. Nisso também tentei entender porque eu cometera o grande ato. Talvez eu quisesse chamar a atenção e surpreender a todos com mais uma atitude inconveniente como eram meus comentários sórdidos nas mesas dos bares e reuniões de amigos. Ou como surpreendia minha mulher, Clara, ao chegar em sua casa no meio da madrugada, bêbado e cantando “vem logo vem curar seu nego que chegou de porre lá da boêmia” e dar-lhe uma grande noite de amor com direito a pré-eliminares para acalmar o seu ódio. Pensei que talvez dei fim a minha vida por causa das mulheres. A vida de casado, mesmo morando em casas diferentes, nunca foi o estilo mais adequado para a minha pessoa. A repressão e a culpa que as relações causavam em mim eram duras. Claro que o problema era comigo mesmo, mas em vez de procurar um psicólogo eu preferia ir para o bar e frequentar a triste utopia de felicidade e toda a liberdade da vida boêmia. Mulheres, bebidas e cigarros em excesso. Seguia engordando ao aproveitar os descontos que os artistas recebiam nos restaurantes do Baixo Augusta. Uma vida desregrada em todos os sentidos da palavra. E durante uma dessas noites tristes encontrei a outra metade de minhas culpas. Um amor de adolescência eis que ressurgia em minha vida, numa noite em que sequer voltei pra casa cantando, feliz em ver a minha mulher. Larissa era minha meditação. Na companhia dela eu não tinha problemas. A paixão da adolescência voltava transformada em um amor reprimido pela força da juventude e pelos desencontros da vida. Porém quando você se apaixona por uma amante, e a amante por você, o caos emocional está instalado. Os efeitos psicológicos estragarão a sua vida, a da amante e a de sua mulher. Pois eu nunca iria largar a mulher da minha vida, mesmo que fosse pelo meu grande amor. Mas também nunca me afastaria de meu grande amor por causa de minha mulher. Mesmo que isso custasse a minha vida. E a vida delas.

Mas também existiam mais perturbações em minha vida. Meus livros estavam encalhados no estoque de uma pequena editora e presos a um contrato. As livrarias não queriam saber deles. Meus curtas-metragens não me renderam nenhum prêmio. A vida era uma merda. Sobrevivia a custas de vídeos de casamentos que me matavam aos poucos, porém mais rápidos que os cigarros. Mesmo assim a vida financeira era uma merda. Me casei, apenas no cartório, pois não tínhamos dinheiro para a festa e nem para comprar ou sustentar o aluguel de um apartamento. Com meus 27 anos ainda morava com meus pais. Não conseguia fazer uma viagem para me livrar das crises de uma pessoa que vive em São Paulo. Tudo explodia ao mesmo tempo como se a minha vida entrasse numa erupção de merdas. Num surto matei-me e agora acabara de me arrepender pois o carro fúnebre chegava ao local do meu enterro. Pior do que viver uma vida de bosta é ser enterrado no cemitério da Lapa.

Mas ao tirarem meu caixão do carro fúnebre eu me animei novamente. Havia muita gente para se despedir de mim. Deveria ter deixado um livro escrito para ser lançado postumamente no meu velório. No meu último lançamento foram apenas 20 pessoas. Mas é incrível como as pessoas dão muito mais valor a morte do que a vida.

Apesar da tristeza de todos eu estava feliz. Quase todos estavam lá e eu havia pegado todos de surpresa. Talvez outros chegariam, menos meu melhor amigo. Já era esperado que ele não viria ao meu velório. Era por volta das quatro e meia da tarde e ele precisaria buscar a mulher dele no emprego nesse horário. Esse foi o mesmo motivo que ele usou para não ir ao lançamento do meu primeiro livro. No segundo eu já nem o convidei. Havia perdido a esperança de que ele estivesse presente em algum momento importante da minha vida. Se por um acaso eu tivesse escolhido um outro sujeito para ser o meu melhor amigo, ainda estaria sofrendo em algum boteco enquanto confessava os meus pecados.

Meu caixão foi posicionado e tiraram a tampa. As portas se abriram e as pessoas começavam a entrar. Nunca me senti tão importante em toda a minha vida. Meus amigos do bairro, o pessoal que estudou comigo no colégio, alguns leitores, parceiros de bar, todos vinham olhar para meu cadáver. Parece que as pessoas só acreditam que o morto está de fato morto quando olham pro cadáver. Por isso muitos acreditam que Michael Jackson anda fazendo compras em Paris.

Minha tristeza recomeçou quando meus primeiros familiares começaram a aparecer. O fiapo de vida que restara de minha avó paterna entrara de cadeira de rodas no local, sendo guiada por meu tio que andava com dificuldade enquanto as lágrimas desciam numa velocidade considerável pelo seu rosto magro. Eu era o xodó da minha avó. Fui egoísta demais com ela. Eu poderia muito bem ter esperado ela partir para fazer essa merda. Mas se eu esperasse não teria feito. Ela sumira em sua cadeira de rodas e estava com um olhar vago. Poucas lágrimas saiam de seus olhinhos. Ela que agora teria mais um motivo para ter rancor do mundo e de Deus. Eu tive a quem puxar.

Atrás deles vinham meus dois primos com quem eu cresci. Já adultos fomos um tanto distantes em alguns momentos e próximos durante outros. O mais velho deles, o Fabio, era mais meu amigo e nos ligávamos de tempos em tempos. Minutos depois chegaria minha avó materna de braços com a minha tia. Elas já haviam passado por isso, assim como minha mãe. Meu avô havia cometido o suicídio. Dizem que depressão é hereditária. Já eu sempre achei que era universal. Se eu tivesse tempo de escolher meu epitáfio, mandaria escrever “Quem nunca pensou em suicídio que atire a primeira pedra”. Já que dizem que é pecado. Talvez eu fosse para o inferno então. Deus me perdoaria de todo o mal que fiz as minhas mulheres mas não por eu ter dado um fim na minha própria vida? Qual é o problema desse Deus? Alias estava na hora de eu descobrir o grande mistério da vida e descobrir se Deus existe. Eu que sempre afirmei que ele não existia, agora na hora H sentia medo de estar errado. Mas minha avó materna tinha uma fé tão grande e rezava tanto por mim que iria me salvar se eu estivesse errado. Mas se eu estivesse certo iria sentir dó dela por passar uma vida inteira rezando em vão, sendo que poderia ter aproveitado os pecados da vida. E ela passou o velório todo com seu terço na mão rezando. Minha tia entristecida estava agitada. Saia e entrava. Numa dessas vezes entrou ajudando a minha mãe a chegar perto do caixão.

Todo filho que morre antes de sua mãe deve ficar louco pra encontrar Deus e leva-lo para o inferno. Me arrependi tremendamente do que fiz ao encontrar com minha mãe no meu próprio velório. A última vez que tinha visto ela desse jeito foi quando atendeu a ligação que informaram que meu avô havia dado um tiro na própria cabeça. Ao me enxergar ela começara a chorar em desespero, e suas lágrimas eram acompanhadas de gritos que paralisava a todos que estavam presentes. Meu pai surgiu tentando abraça-la mas ela não se deixava ser contida. Era o momento dela extravasar a sua tristeza e seu ódio com o destino que levara seu pai e seu filho da mesma forma. Nesse momento que descobri que é possível sentir dores e culpas após a morte. Estava desmoronado dentro de um caixão assistindo o sofrimento que eu causara a minha mãe sem poder fazer nada. Queria me suicidar num processo contrario e voltar a vida para poder abraça-la e dizer que estava tudo bem. Assim como fez João Grilo ao voltar e retomar sua parceria com Chicó em o Auto da Compadecida.

Meu pai ganhara o reforço do meu irmão que também tentava consola-la em vão. Conseguiram leva-la para o lado de fora e eu fiquei ali em companhia do resto dos presentes. Meu cadáver chorava, se é que isso é possível.

Mas a tristeza não tinha fim. Clara, minha mulher chegara. Ela estava calma como um anjo negro enquanto lágrimas negras caiam de seus olhos maquiados. Antes fosse um choro após uma de nossas brigas e eu poderia acalma-la sussurrando em seus ouvidos: “Belezas são coisas acesas por dentro / Tristeza são belezas apagadas pelo sofrimento / Lágrimas negras caem, saem, doem”. Bela canção de Jorge Mautner e Nelson Jacobina de que ela tanto gostava.

Queria beija-la e dizer que a amava e que tudo isso ia passar, que ela era a minha mulher e que seríamos sempre nós contra o mundo. Mas eu falhei e agora não tinha volta. Acho que o suicídio foi o meu pior ato de infidelidade. Ao beijar a morte eu nunca mais voltaria para casa. Talvez ela perdoara minhas traições pois sabia que eu sempre iria voltar. Eu era feito um filho mimado que dependia de uma mãe. Uma criança brincando com a vida e uma mulher decidida, madura, que sabia cuidar de um homem e fazer com que ele evoluísse. Esperando que um dia eu atingisse a maturidade. Em troca eu resolvi morrer da maneira mais egoísta que existe.

Deixei aqui também meu irmão, que entrara novamente, agora sem meus pais. Ele que talvez fosse a pessoa que mais iria sentir a minha falta, apesar de não estarmos tão próximos nos últimos anos. Estava acabado, porém buscava forças para consolar meus pais, meus familiares e minha mulher. Ele e Clara se abraçaram longamente. Eles compartilhavam da mesma dor de perda. E eu também havia sido cruel com ele em vida. Numa de nossas poucas brigas destilei todo o meu veneno rancoroso pra cima dele. E ali no meu caixão ainda me sentia culpado por isso, mesmo ele derramando lágrimas livres de qualquer rancor.

Vendo meu irmão chorar, senti falta de minha irmã que estava morando na Europa. Fiquei imaginando como ela recebeu a notícia. Alguém teria que lhe avisar antes que a página de minha rede social ficasse infestada de mensagens amorosas dizendo que eu iria fazer muita falta.

Minha irmã foi minha companheira de madrugadas durante a infância. Ficávamos horas acordados compartilhando os nossos medos de morrer. Lembro que o transtorno que esse medo causava era tão grande que eu sentia meu coração doer. Eu chorei tanto por causa disso quando criança, que após meus treze anos eu fiquei anos sem chorar. Perdi o medo da morte e a fé nas crenças que eu nunca tive, mas que minha mãe, minha avó materna e a escola de freira que eu estudava me ensinava a ter. Nessa época também eu e minha irmã fomos perdendo a amizade, porém eu nunca deixei de ama-la. Se ela estivesse por perto talvez eu lhe confidenciasse minhas angustias em certas madrugadas e eu ainda estaria vivo. Mas se ela não fosse conquistar o mundo e ficasse aqui em seu país natal estudando numa tentativa utópica e exaustiva e subir na vida em trabalhos claustrofóbicos de escritório, o enterro seria dela. Às vezes é mais fácil ser feliz ao nos acomodarmos com a aventura de trabalhos sub-humanos do que passar a vida querendo ser o diretor de uma empresa multinacional.

As horas, os minutos e os segundos iam passando. Durante a morte o tempo também voa. E os amigos vinham se despedir. Até os inimigos apareciam, como um cara que me roubou e venho verificar se eu realmente estava falecido. Cumprimentou Clara e disse “Pô Clarinha, eu vi o começo do namoro de vocês acontecer…”. O sujeito veio junto com seu primo, Douglas, um grande amigo meu. Porém não o perdoaria pelo resto de minha morte por ter trazido esse sujeito em minha última grande festa. Assim como depois de mortos não viramos santos, eu não deixei de ser rancoroso. Pelo menos na morte não há câncer.

Amigos contavam engraçadas de minha vida. Dentre eles Beto, um de meus grandes amigos que estava acima de qualquer classificação. E pensar que quase brigamos por causa de uma pizza de atum. E ele contava essa história no velório dizendo “E ele queria me bater só porque eu pedi pizza de atum”.
Ele me deu meu primeiro presente de morte. Em vida trocamos por empréstimo uma blusa minha e uma jaqueta de couro dele. Antes de destrocarmos, abriram meu carro enquanto eu transava com uma garota do centro da cidade. Levaram tudo, inclusive a jaqueta de couro. Anos depois ele pediu a jaqueta de volta e eu tive que contar a verdade. Disse que ele poderia ficar com a minha blusa e ele respondeu: “Tá louco? Emprestei blusa nenhuma pra você”. Essa discussão durou anos, com ele sempre dizendo que não havia me emprestado blusa nenhuma, até que hoje ele colocou a minha blusa dentro do meu caixão.

Faltava alguns minutos para o fim do velório e para a minha prisão perpétua embaixo do solo do cemitério da Lapa. Quando surge pela porta uma garota loira. Poucas das pessoas sabiam quem era essa mulher misteriosa. Nem meu irmão sabia. Ela aparecia chorando e sozinha como são os solitários corações apaixonados das amantes. Larissa estava ali promovendo o encontro que eu sempre tentei evitar durante a vida. Sabendo que se ocorresse eu teria que escolher uma das duas. E eu era incapaz de tal escolha. Preferiria mil vezes o suicídio.

Clara sempre soube de tudo. Era minha melhor amiga e sábia do meu passado com Larissa. Quando Larissa virou presente novamente, Clara começou a desconfiar. E como quem procura acha, ela acabou descobrindo. Chegou num momento que não conseguia mais suportar esse amor por duas mulheres. Comecei a tentar convence-las de maneiras sutis a termos uma vida estável a três. A dividirmos uma casinha e vivermos a felicidade proporcionada por um lar harmonioso. Tentei introduzi-las na filosofia da poligamia. Até cheguei a propor um encontro entre nós três para conversarmos, mas não concordaram. Pensei em surpreende-las com um encontro ocasional proposital, mas lembrei do que aconteceu ao personagem de Caio Blat no excelente filme “Histórias de amor duram apenas 90 minutos” e acabei desistindo da ideia. Agora eu não poderia fazer nada, apenas observar o duelo da vida entre as mulheres de minha morte. Os olhares delas se cruzaram frente ao meu caixão. Se fosse um filme eu faria planos psicológicos intercalados no melhor estilo Spaghetti Western dirigido por Sergio Leone. E com direito a trilha sonora de Ennio Morricone.

Estava feliz por ter duas viúvas num mesmo velório, porém me doía ver a dor delas aumentarem por dividir um mesmo homem morto. Principalmente a de Clara, que era a oficial. Nesse momento até os céus choravam uma garoa fina de inverno. Clara me dera o último beijo, encostando seus lábios quentes com gosto de lágrimas negras em minha gelada. Um gesto para mostrar quem manda. Deu-me ainda uma mordida raivosa por faze-la passar por isso. Eu merecia… e foi ela a última pessoa a tocar meu corpo. Poucos segundos fecharam meu caixão que foi carregado em direção a uma cova por Beto, meu pai, meu irmão e meu tio. Seguindo o cortejo, todos os presentes. Minha mãe por minha tinha e minha avó. Um amigo da família empurrara a cadeira de rodas com a minha avó paterna. O triste adeus estava a chegar.

A cova era das mais feias, sem nenhuma escultura de anjos por perto. Mas enfim, eu estava morto e não poderia reclamar, coisa que fiz durante toda a minha vida adulta.

Funcionários desciam meu caixão por cordas. Ainda o derrubaram sem querer, fazendo com que eu batesse a cabeça lá dentro. Algumas pessoas choravam. Minha mãe estava inconsolável. Meu pai estava aéreo, parecendo não saber o que aconteceu realmente. Ele ligou o piloto automático e se manteve em pé para dar forças a minha mãe. Meu irmão pegou o primeiro punhado de terra e antes de joga-lo disse uma frase: “Aqui jaz um imortal. O meu escritor favorito! Vitor Miranda”. A jogou a terra sobre meu caixão que dividia espaço com outros lá embaixo.

Emocionei-me com tal frase. Meu irmão sabia que meu sonho era tornar-me imortal pela minha arte. Acho que não cheguei ao nível de imortalidade histórica como meu ídolo Jim Morrison que também se foi aos 27 anos. Mas deixei alguns curtas-metragens, 2 livros, cada qual com mil cópias circulando por aí, ou encalhados na editora. Talvez com a minha morte à venda dê uma melhorada. Nada demais. Mas os Mamonas Assassinas ficaram eternos com um só livro. Nunca se sabe.

Após meu irmão atirar sem punhado de terra, ele e meu pai se abraçaram fortemente. Depois caminharam até minha mãe e foram embora juntos. Não aguentavam mais estar ali. Algumas pessoas atiraram flores. E enquanto os coveiros atiravam a terra com suas pás sobre minha tumba imortalizada, o momento mais bonito e que fez minha morte valer a pena aconteceu. Clara e Larissa, por coincidência da emoção, assistiam a cena lado a lado. As duas choravam, contendo suas emoções, sem perceber que estavam ali, separadas por alguns centímetros. Ficaram alguns minutos paradas até que os presentes começavam a se dispersarem, até que perceberam estarem uma ao lado da outra. Clara com toda sua maturidade, passou por cima de sua raiva e deu um abraço em Larissa compartilhando suas dores. Larissa retribuiu e eu sorri. Pensando que eu trocaria todas as minhas noites de sexo com todas as mais belas mulheres que eu tive na vida por uma noite de ménage à trois com Clara e Larissa, as mulheres de minha morte.

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