vitorluizmiranda

A vida é engraçada. Somos obrigados a estudar diversas matérias que não é de nosso interesse hoje em dia, num sistema de ensino regrado, com professores que nem sempre estão motivados para dar aulas e frequentemente entram em greve. A matéria de história muitas vezes é didaticamente deturpada pelos livros e pelos professores. Filosofia então…

No meu caso eu tive um professor de filosofia no colégio que era candidato a vereador pelo Partido dos Trabalhadores (PT). Eis aí um grande debate que entrou para a história da E.E. Professor Manoel Ciridião Buarque. Fiz meus quatro anos de colegial tendo matéria de filosofia sem fazer a mínima noção de quem era Sócrates, Platão, Aristóteles, dentre outros que só fui conhecer quando resolvi estudar através de livros para recuperar o tempo perdido no colégio e na faculdade. Porém aprendi muito sobre o PT, porém já tinha idade mental suficiente para questiona-lo sobre o tal do “Mensalão” que ocorrerá nessa época. Os debates eram alucinantes, e culminou com uma nota 0 em uma prova na qual ele pediu para os alunos defenderem um ponto de vista sobre um determinado tema. Não me lembro qual tema eu defendi, mas como não entendia nada de filosofia, resolvi discursar através da escrita, algo que explicasse a minha visão sobre o determinado tema. Anos depois fui ao Teatro Oficina ver Zé Celso encarnar Sócrates e discursar sobre o amor.

Lembro que após receber a prova, alguns amigos tiveram que me conter, pois eu queria agredir o petista filha da puta. Porém ali aprendi, mesmo que sem saber, que eu entendia de filosofia. Matéria que ando usando bastante em mesas de bares e pra levar garotas para cama. Talvez seja a matéria mais importante que eu não aprendi no colégio.

 

Hoje em dia não consigo mais parar para meditar e filosofar sobre a vida, pois minha mãe resolveu me presentear com um smartphone da marca HUAWEI, o que me faz passar vergonha frente aos meus amigos por eu não ter um Iphone 5. Preferia antes quando eu era cult por ser o único da turma a manter o velho celular que só ligava e recebia ligações e mandava torpedo SMS. Nem o jogo “Snake”, aquele da cobrinha, meu celular tinha.

Agora modernizado e com whats’app minha vida começou a perder o sentido. Passo o dia a ler e responder mensagens dos meus amigos do grupo “Ciriguelas”. Quando eu percebi que estava igual os idiotas que eu condenava que andam de metrô com o celular na mão, propus um encontro “das antigas” num boteco sujo qualquer. Claro que meus amigos não quiseram me acompanhar nos bares depressivos do centro da cidade e fomos parar no Birutas comendo pastel. Quer dizer, eu pedi o lanche À Moda Manzola com bastante maionese. E começamos a beber.

Estávamos lá eu (Cotô), Japa, Negão, Gordinho, Preto, Johnnie e o Esquilo (o Cachaça, o Torresmo, o Anão, o Floquinho, Foca e o Alemão não puderam vir por motivos pessoais, profissionais ou porque as respectivas mulheres não deixaram). E o papo começou com uma fofoca da brava…

NEGÃO – Cara, fiquei sabendo que a Alice do colégio está gostando de mulher!

 

COTÔ – Pô daora! Mas ela está um pouco gorda. “A vida é muito curta para dançar com gordas” diria o pai do Hank Moody.

 

NEGÃO – Mas ela era gatinha.

 

GORDINHO – Quem é essa mina?

 

PRETO – Cadê foto dela com mulher?

 

JAPA – Quero vê foto dela chupando buceta.

A galera cai na gargalhada. O Japa era um cara engraçado e fumei muita maconha com ele no colégio. E compartilhávamos o mesmo espírito mulherengo.

GORDINHO – Vixi nem to lembrando… Quem é essa mina aí?

 

ESQUILO – Que falta de personalidade da porra virar sapatão.

 

Negão saca do celular e mostra a foto da Alice na roda.

 

GORDINHO – Ah eu lembro dessa mina. É gata!

 

NEGÃO – O Johnnie já pegou.

 

Negão adora uma fofoca. Outro dia mesmo disse que o Jô Soares havia morrido. Todo mundo no bar acreditou. Tomamos um porre em homenagem ao gordo e no dia seguinte publicaram uma nota dizendo que o Jô recebia alta do hospital.

 

PRETO – Mas olha, ouvi dizer que a Alice começou a curtir mulher depois que ficou com o Floquinho e com o Johnnie.

 

A galera cai na risada. Johnnie é um cara legal. Mais legal do que o da música do Legião Urbana.

 

JOHNNIE – Vai se foder seu macaco do caralho!

 

Entre amigos o preconceito é válido na hora de xingar. E foda-se os politicamente corretos.

 

COTÔ – É bom comprovar as informações do Negão pois semana passada ele matou o Jô Soares.

NEGÃO – Tá, a do Jô Soares foi foda. Meu tio que falou a parada. Mas voltando pra Alice, sei lá, eu comeria ela de qualquer jeito.

 

GORDINHO – Eu também.

 

Gordinho com gordinha dá empate. O Gordinho era uma cara folgado como todos nós éramos. Acho que era o instinto da sobrevivência num colégio estadual. Se você for magrela é bom que seja folgado pra não precisar sair na porrada. E se for gordinho seja folgado pra não sofrer bullying.

 

PRETO – Tô vendo as fotos aqui. Não parece estar gorda.

 

NEGÃO – Eu também não acho ela gorda. Acho ela uma delícia.

 

GORDINHO – Qual o nome completo dela? Vou procurar no facebook.

 

JAPA – Gorda é igual buceta gorda.

 

NEGÃO – Eu gosto de carne.

 

JOHNNIE – Na minha opinião ela deu uma engordada sim, mas não tá zuada.

 

JAPA – Tá fofinha.

 

COTÔ – Olha, não querendo denegrir a imagem da ex-mulher dos camaradas. Mas a Alice é a mina que ia com a calça jeans enfiada no rego.

 

PRETO – Denegrir a imagem da Alice? Mas do que ela se denegriu no Ciridião?

 

NEGÃO – Ela namorou o Orlandinho, amigo do Snoop Dog.

 

Orlandinho era um maluco não muito provido de beleza física que andava junto com um cara que parecia o Snoop Dog.

 

COTÔ – E namorou o Gilóca que apanhou do Formiga. E cá pra nós, apanhar do Formiga é brincadeira.

 

NEGÃO – Olha se ela ainda gostar da fruta eu meto o pau nela. Desculpa pra quem namorou com ela.

 

ESQUILO – Ela até deflorou nosso amigo.

Esquilo era um sujeito que fazia uns comentários bem interessantes. E conseguiu a proeza de rachar a cabeça na parede após anunciar embriagado no meio de um churrasco que iria demonstrar um passo de dança. Mas seu apelido é Esquilo pois durante um jogo de mímica ele imitou o esquilo do filme “A Era do Gelo” com tamanha perfeição que nunca mais nos esquecemos disso.

 

GORDINHO – Como é o nome dela na porra do face?

PRETO – Alice Damaceno. Mas ô Cotô, você não pega não?

 

NEGÃO – Lógico que o Cotô pega. Já pegou tanto trabuco na vida.

 

PRETO – Cheia de carne mano.

 

GORDINHO – Enfio a rola nela e em vocês.

 

JOHNNIE – Vai se foder seu gordo!

 

COTÔ – Já tenho muita gordinha no currículo. Tem até umas obesas.

 

NEGÃO – Vamos parar de falar dela que o Johnnie vai chorar.

 

JOHNNIE – Vai se foder seu macaco!

 

GORDINHO – Caraio Japa, ela conhece o Xoxão.

 

PRETO – Ela deve ter um xoxão.

 

ESQUILO – Um xoxão raspadinho.

 

COTÔ – O legal das gordinhas é praticar a posição papai/mamãe. É confortável ficar por cima delas.

 

ESQUILO – E a chupeta também!

 

NEGÃO – Eu gosto de gordinha. Dá pra agarrar bem forte.

 

COTÔ – O Negão é o tarado cadeirudo daquela novela “A Indomada”.

 

JOHNNIE – Tarado cadeirudo é foda!

 

GORDINHO – Porra não tenho ela no face, mas tem trinta amigos em comum.

 

NEGÃO – Caralho… A Alice… Mó corpinho que arrasa indo pro outro lado.

 

ESQUILO – “Corpinho que arrasa”? Que comentário gay maluco! Chupa meu ovo!

 

PRETO – O Negão indo pro outro lado também.

 

JAPA – Tá tipo Vera Verão.

 

COTÔ – Eu ainda acho que a gente deveria ter ido beber no centro e caçar umas mulheres doidas.

 

PRETO – Devemos mesmo é ir na casa do Japa que vai casar e não quer fazer despedida de solteiro.

 

NEGÃO – Vamos falar de outra mulher. E essa aqui em Cotô?

Negão mostra a foto de Amanda no celular. A minha paixão do colégio. Todos riem.

 

COTÔ – Vai tomar no seu cu largo!

 

NEGÃO – Não chora não Cotô.

 

PRETO – Os caras mexendo com amores aqui.

 

ESQUILO – Dedo na ferida.

 

COTÔ – Vamos falar de mulheres e não e amores caralho. Mexer com essas coisas não é certo. Se não vou começar a falar da Camila e o Negão não vai gostar.

 

Gargalhada geral. Preto mostra a foto da Camila.

NEGÃO – Vai te fudê porra!

Negão pega o celular a apela mostrando uma foto da minha irmã.

 

JAPA – Caralho que gostosa e sua irmã Cotô!

 

GORDINHA – Manda o facebook dela pra mim.

 

COTÔ – Vão te foder caralho!

 

PRETO – Mas pra zuar o Cotô é essa aqui.

 

Preto mostra a foto da irmã do Foca. Ela era pequena quando eu frequentava a casa dele. Alguns anos depois voltei lá e ela havia crescido. E como havia crescido…

 

GORDINHO – Aí é mancada. O cara nem está aqui pra se defender.

 

PRETO – Tô brincando.

 

NEGÃO – Que cuzão!

 

JAPA – Que gatinha a irmã do Foca.

 

COTÔ – Não vem não seu japonês safado. E vamos respeitar meu cunhado que não está presente.

 

ESQUILO – O Preto está só de boa aí. Mas se liga nessa mina aqui.

Esquilo pega o celular e mostra a foto de uma “cabecinha de gato” que estudou no colégio com a gente.

 

GORDINHO – Você pegou Preto?!

ESQUILO – Deus não é padrasto não.

 

COTÔ – Pegou? Namorou!

 

NEGÃO – Nossa Preto!

 

PRETO – Foda… Eu e uma galera da quebrada.

 

COTÔ – A vizinhança toda.

 

NEGÃO – Cansadíssima!

 

GORDINHO – Era gostosa. O foda era o sotaque.

 

COTÔ – Era gostosa lá na Bahia.

 

Negão saca do celular novamente e mostra a fodo da mina mais nerds do colégio.

NEGÃO – O Cotô pegou essa aí.

 

Para os meus amigos eu peguei todas as mulheres do mundo. Inclusive as irmãs deles.

 

COTÔ – Cara eu nunca peguei essa mina. Mas vou te dizer que hoje em dia eu pegaria fácil. O problema é que ela não me dá mole pois eu cometia bullying ela. Bem que eu queria bolina-la denovo.

 

PRETO – E essa aqui Negão. Quando você pegou ela não era assim.

 

Preto mostrou a foto de uma mina muito gata. A Dalila. Porém na época do colégio ela era um tanto obesa. Então o ditado do pai do Hank Moody caí pelo chão. Dance com as gordinhas pois elas podem emagrecer.

 

NEGÃO – Quem é essa? A Dalila?

 

COTÔ – Caralho!

 

NEGÃO – Olha o Cotô de olho.

 

COTÔ – Ex-gorda a gente aceita.

 

GORDINHO – Caralho! Não lembro dessa não. Tem facebook?

 

NEGÃO – Poucos lembram…

 

GORDINHO – Era do colégio?

 

NEGÃO – Sim. Amiga da Aline.

 

JOHNNIE – Aline é ex-namorada do Foca.

 

COTÔ – Vou te dizer que essa mina derrubou mais gente no churrasco do Monstrão do que os amigos deles.

Monstrão era um amigo nosso. Um cara meio esquisito que ficou gago após servir o exercito. Uma vez rolou um churrasco de aniversário dele e saiu um quebra pau por causa da fimose do Foca e a gente levou um pau dos caras que faziam faculdade com o Monstrão. Mas antes disso a Dalila derrubou alguns…

 

GORDINHO – Era matadora então.

 

COTÔ – A gordinha era terrorista!

 

JOHNNIE – Enfiaram a língua na coitada.

 

NEGÃO – Todo mundo negou na época.

 

COTÔ – Eu nego até hoje pois fui o único que não peguei. Estava namorando na época.

 

Nesse momento chega no bar o Anão. Como o próprio apelido diz, ele era o baixinho da turma e sempre vinha com seus papos sérios de doutor advogado. Mas no bar ele era réu.

 

ANÃO – Que tá rolando aqui?

 

COTÔ – Pega mais umas 5 brejas e senta aí que tu é réu.

 

ANÃO – Caralho! Os cara é foda!

 

Anão foi buscar as cervejas no balcão enquanto o papo continuava.

 

PRETO – Esse churras do Monstrão foi lendário.

 

NEGÃO – Eu vou confessar que dei uns beijo mémo. Mó gordinha fat!

 

GORDINHA – Gordinha fat é foda.

 

COTÔ – O Anão também.

 

ANÃO – Eu também o que?

 

GORDINHO – Passou a mão na gordinha matadora.

 

COTÔ – Pegou a Dalila.

 

ANÃO – Caralho! Cheguei agora e já sou acusado.

 

NEGÃO – É… uns caras pegou aí…

 

ANÃO – Se eu não lembro, não peguei.

 

GORDINHO – Eu não.

 

PRETO – Ela era a mais zuada naquela época.

 

JOHNNIE – Mas agora a mina ia ser disputada hein.

 

GORDINHO – Acho que não era da minha época se não eu pegava também.

 

NEGÃO – Mas ela era gorda demais!

JOHNNIE – Vamos fazer um churrasco e convidar ela.

 

COTÔ – Tem um malandro aí que adora gordinha e que nega até hoje…

PRETO – Se jogar isso na roda metade da mesa vai achar que é indireta.

 

GORDINHO – Os caras fala demais.

 

PRETO – E ninguém zuou o Japa.

 

JAPA – Eu não peguei essa Dalila não.

 

COTÔ – Claro que zuaram. Não falaram da Camila na roda?

 

JAPA – É eu peguei a Camila… Desculpa Negão.

 

COTÔ – É eu chupei até os peitinhos na escada do seu prédio. Foi mal Nego.

 

GORDINHO – Caralho! Até eu peguei a Camila.

 

NEGÃO – Vão se foder todos vocês!

JAPA – O Gordinho pegou a Camila quando ela tinha 11 anos e ele 18.

 

GORDINHO – Faz tempo isso hein…

 

PRETO – Caraio. Aí é pecado.

 

GORDINHO – E depois peguei a irmã dela.

 

NEGÃO – A irmã da Camila é cavala hein.

 

PRETO – Não dala da irmã da Camila que o Anão chora.

 

ANÃO – Sobrou pra mim de novo.

 

COTÔ – É por isso que eu falo pra não falarmos de amores. Pelo menos a minha só eu peguei.

 

NEGÃO – Cotô. Se tá querendo atingir quem com esses seus comentários filosóficos?

 

PRETO – Vixi o papo tá ficando sério. Acho que vou pra casa dormir.

 

GORDINHO – Verdade. Melhor a gente vasar.

 

JOHNNIE – Aquele abraço rapazes.

 

ESQUILO – Orra! Chamou a mãe de puta.

 

JOHNNIE – E o pai de macaco!

 

COTÔ – Relaxa aí rapaziada. Pô eu te amo Negão. Tu é meu brother. Pede pra descer mais cinco?

 

ANÃO – Vou lá pegar.

 

NEGÃO – O cara quer pegar minha irmã e fica nessas putices.

 

COTÔ – Pior que eu quero.

 

NEGÃO – Cuzão!

 

JAPA – Tem foto da irmã do Nego aí?

 

NEGÃO – Que porra de foto.

 

JAPA – Por gentileza.

 

GORDINHO – Também quero ver agora.

 

JOHNNIE – É só falar da irmã que o cara ficou putinho.

 

JAPA – Vai mostra a foto aí.

 

COTÔ – Mostra foto porra nenhuma. Essas paradas de mostrar foto da mulher dos outros não dá certo.

 

GORDINHO – Relaxa Cotô… Só pra dar uma avaliada.

 

COTÔ – Vai avaliar mulher dos outros. As minhas não.

 

JOHNNIE – Já está assim Negão?

 

GORDINHO – Mas não fala muito não Cotô que vários caras pegam a sua irmã. Inclusive eu.

 

 

JAPA – Eu por enquanto só bronha pra ela.

 

ANÃO – Bronha é foda!

 

JOHNNIE – Mancada.

 

ESQUILO – Tem pelo na mão esse maluco.

 

COTÔ – Tem boceta é pra dar, porra. Se eu pudesse eu comia também. Minha irmã é mó gata.

 

NEGÃO – Caralho Cotô!

 

GORDINHO – As idéia do Cotô.

 

JAPA – Só não pode fazer filho.

 

Negão saca do celular novamente com mais um assunto pra mesa.

 

NEGÃO – Essa mina eu achava da hora!

 

GORDINHO – Gabizinha… Essa sim era gata!

 

JAPA – Era zuadinha na época. Não sei hoje.

 

COTÔ – O Japa queria pegar a gordinha, mas acha zuada a gostozinha. Tá tirando esse maluco.

 

JAPA – Eu quero é saber da foto da irmã do Negão.To no aguardo aqui.

 

ESQUILO – O cara levou a sério a irmã do Nego.

 

Preto saca do celular com a foto da Lolo. Essa era mito do Ciridião.

 

PRETO – E essa aqui? Quem lembra?

 

ANÃO – Pegou pesado agora.

 

JAPA – Credo!

 

ESQUILO – Brochei…

 

JOHNNIE – Prefiro a Aline gorda e lésbica. Já sentou em todas pirocas e agora partiu pra outra.

 

NEGÃO – Pelas evidências sim.

 

ANÃO – Mas a Gabizinha era outro nível.

 

JAPA – Outro nível é a irmã do Negão.

 

NEGÃO – Vai se foder seu pinto pequeno do caralho.

 

COTÔ – Esse Japonês quer furar meus zóio.

 

JAPA – É um ciclo que se renova. Todos furamos.

 

JOHNNIE – Vocês não valem uma pipoca.

 

ESQUILO – E a pipoca tá cara.

 

JAPA – O Cotô pegava sem dó mano. Qualquer uma que tinha vagina. Até a diretora que mancava ele deve ter pego.

 

JOHNNIE – A ponta e vírgula?

 

ANÃO – Aí é mancada.

 

ESQUILO – Até a tia Rose, vulgo Roque do Silvio Santos, escapou dele.

 

JOHNNIE – E a professora de Geografia?

 

ESQUILO – Passou o mingau na geral.

 

JAPA – O Cotô era foda mano. Mito!

 

NEGÃO – Cotô mito!

 

JAPA – Grande guerreiro!

 

PRETO – Um brinde ao mito!

 

COTÔ – Os caras são foda!

 

Todos brindam. A maioria das histórias que contavam ao meu respeito era mentira. Mas algumas eram verdade. Fiz a fama, agora fodeu. Porém melhor é pegar geral, inclusive a irmã dos outros, do que não pegar ninguém.

 

ANÃO – Pegou a Inês fazendo cagada.

 

COTÔ – Cara eu queria pegar era a diretora, a Marlene.

 

NEGÃO – A loirona, né?

 

JAPA – Olha o Nego que safado. De olho na diretora também.

 

COTÔ – Essa mesmo. Tentei uma aproximação via facebook, mas parece que não rolou. Talvez eu tenha sido muito mal educado com ela no colégio.

 

ESQUILO – To dizendo. Vocês são lixo! Dons bons, porém ainda assim, lixos.

 

NEGÃO – E o Cotô pegou a Marina também.

 

COTÔ – Quem é Marina que eu nem sei?

 

JAPA – Acho que é a Morena.

Marina, a morena. E que morena. Quando deu mole pra mim eu não pensei duas vezes. Depois fui saber que um amigo meu e também da rapaziada era apaixonado pela mina. Sabe como é: “Pipa no alto não tem dono”. Mas meus amigos pararam de falar comigo e eu tive que decidir entre comer a morena ou continuar a amizade com os caras. Pois sabe como é: “Fazer amizade é fácil. O difícil é manter”.

 

COTÔ – Podes crer… é verdade. Vocês pararam de falar comigo na época.

 

PRETO – Talarico.

 

ESQUILO – Cotô passou o martelo, né safado.

 

JOHNNIE – Safado!

 

JAPA – Ela tinha vagina, né mano.

 

COTÔ – Os caras são foda.

 

PRETO – O Cotô só não pegou o irmão daquela mina que dançava axé porque ele não tinha vagina.

 

ANÃO – É… virou traveco mas ainda não tem vagina.

 

GORDINHO – Mas de repente ele pode operar.

 

COTÔ – Eu só não peguei a namorada do Manoel.

 

JAPA – Não lembro.

 

COTÔ – Nem eu, pois eu tomei uns murros na cabeça.

 

ANÃO – Ah vá Cotô. Você pegou sim mano.

 

JAPA – Nossa aquela zuadinha. Mó vádia do caralho. Dava em cima de todo mundo e depois se o malandro não quisesse ela ia e falava pro namorado.

 

COTÔ – Pois é… e o cara lutava boxe.

 

JOHNNIE – Lutava pra caralho!

 

PRETO – Arrebentou o Cotô.

 

ESQUILO – Fez de saco de pancada.

 

GORDINHO – Moeu.

 

COTÔ – Mas quem pegou mesmo foi o Diego. E depois levou ela no meu aniversário.

 

ANÃO – Foda.

 

GORDINHO – Cuzão.

 

Agora quem chega é Torresmo. O apelido é porque o Negão ateou fogo no menino durante um churrasco. Foi sem querer, mas o apelido ficou.

 

TORRESMO – E ae manolos!

 

ANÃO – Salve Torresmo! Já pega mais cerveja pra gente e uma coca-cola pra você.

 

COTÔ – E libera um cigarro que o meu acabou.

 

GORDINHO – Caralho lembra quando o Negão tacou fogo no Torresmo?

 

JAPA – Podis crer!

 

ESQUILO – E depois apagou com tijolo.

 

TORRESMO – Vai te fudê.

 

PRETO – Foi foda!

 

NEGÃO – Deixa essa história pra lá que não vale a pena.

 

Torresmo pega as cervejas e sua coca-cola e senta a mesa.

 

JAPA – É vamos continuar falando das mulheres que o Cotô pegou.

 

ESQUILO – Passou o pepino na geral.

 

COTÔ – Eu só fiquei com a Amanda no colégio.

 

TORRESMO – Amanda do Euclides?

 

COTÔ – Eu nem estudei no Euclides.

 

TORRESMO – Mas pegou a Amanda Demonaizes.

COTÔ – Que porra de Demonaizes o caralho! Quem pegou ela foi o Roger.

 

ANÃO – É… mas deixa esse assunto pra lá que ele está namorando a irmã do Cachaça.

 

PRETO – Os caras são foda. Pega a irmã do maluco no aniversário surpresa do cara.

 

JAPA – Mas o Cotô é o rei do puteiro.

 

COTÔ – Rei do puteiro é o Foca que frequentava o bordel junto com o sogro.

 

TORRESMO – Eu já peguei umas duas zuadas, mas o Cotô é foda.

 

JAPA – Duas é pouca pro mito rei do puteiro.

 

GORDINHO – O Japa que fuma maconha e o Cotô que fica biruta.

 

ESQUILO – Qualquer vagina que respirasse era alvo.

 

JAPA – Saudades dos baseados antes do colégio.

 

COTÔ – O Torresmo tá de sacanagem comigo. Fica inventando história aí, mas ele que desfilava de mãos dadas com uma mina horrível.

 

TORRESMO – Ixi tá inventando…

 

JAPA – O Torresmo só teve um único amor: O Marlboro vermelho.

 

COTÔ – Namorou uma loirinha cheia de buraco na cara.

 

GORDINHO – A Monicão.

 

TORRESMO – Namorei? Só peguei por uma semana.

 

JOHNNIE – É isso é verdade Torresmo. Você andava de mãos dadas com ela.

 

ANÃO – E passava o intervalo sentado junto dela nos degraus do primeiro pátio.

 

COTÔ – Inclusive, depois trocou ela pelo Marlboro Vermelho.

 

TORRESMO – 90% dessa mesa aqui já pegou ela.

 

COTÔ – Eu não.

 

JAPA – Mas cara… Vou falar uma parada. Entre nós. O pior de todos foi o Fred.

 

ANÃO – Caralho que guela mano!

 

TORRESMO – Ciriguelas!

 

Acho que todos tinham pensado em soltar essa pérola do humor negro na mesa, mas é o ápice do politicamente incorreto e ninguém quer se comprometer. Mas são essas coisas que rolam nas rodas de amigos das mesas de qualquer boteco. O Fred era um maluco gente boa. Talvez um dos mais gente boa do colégio inteiro. Ele começou a namorar uma garota que também era uma das mais legais do colégio. Porém havia um problema físico com ela. Ele nascera sem o antebraço direito, deixando ela só com o cotoco. E também sem a mão esquerda. O que gerava criatividades para piadas do tipo: “Pô vocês ficaram sabendo da última? O Fred deu uma aliança pra mina dele”. E malandro, podem falar o que quiserem, mas na roda de amigos não se perdoa nada. E caímos na risada. Foda-se!

 

Depois dessa tivemos que pedir a saideira. Qualquer dia nos encontramos novamente em qualquer outro boteco da cidade para repetir as mesmas histórias de sempre. Pois a nossa amizade é feito o Chaves. A gente sempre ri ao assistir os episódios repetidos.

 

Voltei pra casa bêbado essa noite. E com pensamentos filosóficos sobre o legado do colegial. Saí de lá sem conhecer Sócrates, Platão e Aristóteles e sem saber o que era filosofia. Mas em compensação conheci “os caras” e aprendi pra valer o que é fazer uma amizade. Espero que um dia a gente consiga juntar todos numa mesma mesa de bar pra filosofar um pouco sobre isso.

Só sobrou o sol…

no céu.

Na minha mente

resta a sua imagem.

No peito…

um sentimento

que clama pela sua presença.

Que chama pelo teu corpo.

E que ama,

fazendo de você a única estrela

no meu céu obscuro.

Que abriga em meu coração

uma única lembrança…

Só sobrou seus beijos

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No filme “Frost/Nixon” (por mais que a direção e o roteiro possa ter fantasiado os fatos históricos) é possível ter a percepção do que é um duelo entre um político e um profissional da imprensa. O jornalista tem poucos minutos para tirar palavras de um sujeito que é treinado para não responder o que lhe foi perguntado de uma maneira longa (e viajante comparado a um sujeito que usou drogas pesadas durante a vida inteira, feito o mito, Serguei) e sem objetivo algum de conclusão enquanto vai citando no meio do “bololo” inúmeros fatos que não estavam em questão. O que faz gastar o tempo do indivíduo (no caso nós os eleitores idiotas que ficam discutindo e fazendo inimizades nas mesas de bares) que interrompe a sua refeição durante 15 minutos para prestar atenção nesses três patetas enquanto sua refeição esfria.

Então você aí do sofá que está chamando o William Bonner de ídolo. Contenha-se! Pois ele falhou na sua missão. Dilmão não respondeu porra nenhuma do que lhe foi perguntada. Já Patrícia Poeta, coitada… Não tem culhões para fazer uma entrevista dessa magnitude. Mas a tua beleza é estonteante.

Já eu irei procurar novamente a entrevista do mito, Serguei, concedida ao Jô Soares na qual ele não responde bulhufas do que o querido apresentador lhe pergunta. Mas eu sempre serei fã do Serguei, o cantor de “Eu Sou Psicodélico”. Afinal de contas… Quem nunca quis comer a Janis Joplin?

Sempre pensei em forjar a minha morte. Eis que decidi fazer dela algo real. Acovardei-me dando cabo de minha vida ao tomar a atitude mais corajosa que um ser vivo possa ter: o suicídio. Ontem às vinte e três horas e cinquenta e sete minutos enforquei-me com uma toalha amarrada ao banho box e por ali fiquei até às sete e trinta e oito da manhã. Ainda ouvia os pássaros cantarem a minha morte quando meu corpo foi encontrado por minha empregada. A expressão de susto que tomou conta de sua face foi um tanto engraçada. Agora o que seria de Maria? Traumatizada e sem emprego.

Já meu pai foi tomado pela tristeza ao reconhecer meu corpo no necrotério. Via-o chorar pela primeira vez na vida. Um cara frio e sem amigos que se dedicou a vida inteira ao trabalho. Talvez eu tenha sido o seu melhor amigo. Uma perda irreparável. Antes fosse, apenas, somente um filho. Seu rosto se contorcia em dor num choro sem lágrimas, parecido com às lágrimas de crocodilos tão convincentes de Marlon Brando ao interpretar Don Corleone chorando a morte de seu filho Sonny em O Poderoso Chefão. Ele fez que sim com a cabeça e saiu amparado pelo funcionário.

 

Algumas pessoas preparavam meu corpo já inchado para o meu velório e me vestiam de terno e gravata. Minha morte já começava triste assim como foi a minha vida. Deveria ter escrito um testamento, pelo menos para escolher o que eu iria usar na minha festa fúnebre. Queria também ter o poder de mudar esse ritual de merda que os cristãos fazem. Terno, gravata, algodão no nariz e na orelha, caixão e o nosso corpo num caixote com tampão sob um punhado de terra. Queria ter uma morte como a de Quincas Berro D’água, afundando-me nas profundezas dos mares, embriagado e recitando: “Cada qual que cuide do seu enterro. O impossível, não há. Sete palmos de terra, não vão me encarcerar. Vaguei-o ao sabor das ondas, no leito de espuma do mar. Nem no céu, nem no inferno, no mar é que eu vou morar…“

Agora, dentro de um caixão tampado, meu corpo era transportado dentro de um carro fúnebre rumo a algum cemitério. Estava tenso, não por ter morrido, e sim para saber como seria o meu velório. Sempre ficava assim em momentos importantes como aniversários, lançamento dos meus livros, e no velório não seria diferente. Esperei uma vida inteira para saber como seria esse momento. Eu roeria minhas unhas se ainda pudesse, num ato de extrema ansiedade pensando em quem iria, como seria a reação das pessoas, se iria estar cheio, quem iria carregar meu caixão, enfim. Nisso também tentei entender porque eu cometera o grande ato. Talvez eu quisesse chamar a atenção e surpreender a todos com mais uma atitude inconveniente como eram meus comentários sórdidos nas mesas dos bares e reuniões de amigos. Ou como surpreendia minha mulher, Clara, ao chegar em sua casa no meio da madrugada, bêbado e cantando “vem logo vem curar seu nego que chegou de porre lá da boêmia” e dar-lhe uma grande noite de amor com direito a pré-eliminares para acalmar o seu ódio. Pensei que talvez dei fim a minha vida por causa das mulheres. A vida de casado, mesmo morando em casas diferentes, nunca foi o estilo mais adequado para a minha pessoa. A repressão e a culpa que as relações causavam em mim eram duras. Claro que o problema era comigo mesmo, mas em vez de procurar um psicólogo eu preferia ir para o bar e frequentar a triste utopia de felicidade e toda a liberdade da vida boêmia. Mulheres, bebidas e cigarros em excesso. Seguia engordando ao aproveitar os descontos que os artistas recebiam nos restaurantes do Baixo Augusta. Uma vida desregrada em todos os sentidos da palavra. E durante uma dessas noites tristes encontrei a outra metade de minhas culpas. Um amor de adolescência eis que ressurgia em minha vida, numa noite em que sequer voltei pra casa cantando, feliz em ver a minha mulher. Larissa era minha meditação. Na companhia dela eu não tinha problemas. A paixão da adolescência voltava transformada em um amor reprimido pela força da juventude e pelos desencontros da vida. Porém quando você se apaixona por uma amante, e a amante por você, o caos emocional está instalado. Os efeitos psicológicos estragarão a sua vida, a da amante e a de sua mulher. Pois eu nunca iria largar a mulher da minha vida, mesmo que fosse pelo meu grande amor. Mas também nunca me afastaria de meu grande amor por causa de minha mulher. Mesmo que isso custasse a minha vida. E a vida delas.

Mas também existiam mais perturbações em minha vida. Meus livros estavam encalhados no estoque de uma pequena editora e presos a um contrato. As livrarias não queriam saber deles. Meus curtas-metragens não me renderam nenhum prêmio. A vida era uma merda. Sobrevivia a custas de vídeos de casamentos que me matavam aos poucos, porém mais rápidos que os cigarros. Mesmo assim a vida financeira era uma merda. Me casei, apenas no cartório, pois não tínhamos dinheiro para a festa e nem para comprar ou sustentar o aluguel de um apartamento. Com meus 27 anos ainda morava com meus pais. Não conseguia fazer uma viagem para me livrar das crises de uma pessoa que vive em São Paulo. Tudo explodia ao mesmo tempo como se a minha vida entrasse numa erupção de merdas. Num surto matei-me e agora acabara de me arrepender pois o carro fúnebre chegava ao local do meu enterro. Pior do que viver uma vida de bosta é ser enterrado no cemitério da Lapa.

Mas ao tirarem meu caixão do carro fúnebre eu me animei novamente. Havia muita gente para se despedir de mim. Deveria ter deixado um livro escrito para ser lançado postumamente no meu velório. No meu último lançamento foram apenas 20 pessoas. Mas é incrível como as pessoas dão muito mais valor a morte do que a vida.

Apesar da tristeza de todos eu estava feliz. Quase todos estavam lá e eu havia pegado todos de surpresa. Talvez outros chegariam, menos meu melhor amigo. Já era esperado que ele não viria ao meu velório. Era por volta das quatro e meia da tarde e ele precisaria buscar a mulher dele no emprego nesse horário. Esse foi o mesmo motivo que ele usou para não ir ao lançamento do meu primeiro livro. No segundo eu já nem o convidei. Havia perdido a esperança de que ele estivesse presente em algum momento importante da minha vida. Se por um acaso eu tivesse escolhido um outro sujeito para ser o meu melhor amigo, ainda estaria sofrendo em algum boteco enquanto confessava os meus pecados.

Meu caixão foi posicionado e tiraram a tampa. As portas se abriram e as pessoas começavam a entrar. Nunca me senti tão importante em toda a minha vida. Meus amigos do bairro, o pessoal que estudou comigo no colégio, alguns leitores, parceiros de bar, todos vinham olhar para meu cadáver. Parece que as pessoas só acreditam que o morto está de fato morto quando olham pro cadáver. Por isso muitos acreditam que Michael Jackson anda fazendo compras em Paris.

Minha tristeza recomeçou quando meus primeiros familiares começaram a aparecer. O fiapo de vida que restara de minha avó paterna entrara de cadeira de rodas no local, sendo guiada por meu tio que andava com dificuldade enquanto as lágrimas desciam numa velocidade considerável pelo seu rosto magro. Eu era o xodó da minha avó. Fui egoísta demais com ela. Eu poderia muito bem ter esperado ela partir para fazer essa merda. Mas se eu esperasse não teria feito. Ela sumira em sua cadeira de rodas e estava com um olhar vago. Poucas lágrimas saiam de seus olhinhos. Ela que agora teria mais um motivo para ter rancor do mundo e de Deus. Eu tive a quem puxar.

Atrás deles vinham meus dois primos com quem eu cresci. Já adultos fomos um tanto distantes em alguns momentos e próximos durante outros. O mais velho deles, o Fabio, era mais meu amigo e nos ligávamos de tempos em tempos. Minutos depois chegaria minha avó materna de braços com a minha tia. Elas já haviam passado por isso, assim como minha mãe. Meu avô havia cometido o suicídio. Dizem que depressão é hereditária. Já eu sempre achei que era universal. Se eu tivesse tempo de escolher meu epitáfio, mandaria escrever “Quem nunca pensou em suicídio que atire a primeira pedra”. Já que dizem que é pecado. Talvez eu fosse para o inferno então. Deus me perdoaria de todo o mal que fiz as minhas mulheres mas não por eu ter dado um fim na minha própria vida? Qual é o problema desse Deus? Alias estava na hora de eu descobrir o grande mistério da vida e descobrir se Deus existe. Eu que sempre afirmei que ele não existia, agora na hora H sentia medo de estar errado. Mas minha avó materna tinha uma fé tão grande e rezava tanto por mim que iria me salvar se eu estivesse errado. Mas se eu estivesse certo iria sentir dó dela por passar uma vida inteira rezando em vão, sendo que poderia ter aproveitado os pecados da vida. E ela passou o velório todo com seu terço na mão rezando. Minha tia entristecida estava agitada. Saia e entrava. Numa dessas vezes entrou ajudando a minha mãe a chegar perto do caixão.

Todo filho que morre antes de sua mãe deve ficar louco pra encontrar Deus e leva-lo para o inferno. Me arrependi tremendamente do que fiz ao encontrar com minha mãe no meu próprio velório. A última vez que tinha visto ela desse jeito foi quando atendeu a ligação que informaram que meu avô havia dado um tiro na própria cabeça. Ao me enxergar ela começara a chorar em desespero, e suas lágrimas eram acompanhadas de gritos que paralisava a todos que estavam presentes. Meu pai surgiu tentando abraça-la mas ela não se deixava ser contida. Era o momento dela extravasar a sua tristeza e seu ódio com o destino que levara seu pai e seu filho da mesma forma. Nesse momento que descobri que é possível sentir dores e culpas após a morte. Estava desmoronado dentro de um caixão assistindo o sofrimento que eu causara a minha mãe sem poder fazer nada. Queria me suicidar num processo contrario e voltar a vida para poder abraça-la e dizer que estava tudo bem. Assim como fez João Grilo ao voltar e retomar sua parceria com Chicó em o Auto da Compadecida.

Meu pai ganhara o reforço do meu irmão que também tentava consola-la em vão. Conseguiram leva-la para o lado de fora e eu fiquei ali em companhia do resto dos presentes. Meu cadáver chorava, se é que isso é possível.

Mas a tristeza não tinha fim. Clara, minha mulher chegara. Ela estava calma como um anjo negro enquanto lágrimas negras caiam de seus olhos maquiados. Antes fosse um choro após uma de nossas brigas e eu poderia acalma-la sussurrando em seus ouvidos: “Belezas são coisas acesas por dentro / Tristeza são belezas apagadas pelo sofrimento / Lágrimas negras caem, saem, doem”. Bela canção de Jorge Mautner e Nelson Jacobina de que ela tanto gostava.

Queria beija-la e dizer que a amava e que tudo isso ia passar, que ela era a minha mulher e que seríamos sempre nós contra o mundo. Mas eu falhei e agora não tinha volta. Acho que o suicídio foi o meu pior ato de infidelidade. Ao beijar a morte eu nunca mais voltaria para casa. Talvez ela perdoara minhas traições pois sabia que eu sempre iria voltar. Eu era feito um filho mimado que dependia de uma mãe. Uma criança brincando com a vida e uma mulher decidida, madura, que sabia cuidar de um homem e fazer com que ele evoluísse. Esperando que um dia eu atingisse a maturidade. Em troca eu resolvi morrer da maneira mais egoísta que existe.

Deixei aqui também meu irmão, que entrara novamente, agora sem meus pais. Ele que talvez fosse a pessoa que mais iria sentir a minha falta, apesar de não estarmos tão próximos nos últimos anos. Estava acabado, porém buscava forças para consolar meus pais, meus familiares e minha mulher. Ele e Clara se abraçaram longamente. Eles compartilhavam da mesma dor de perda. E eu também havia sido cruel com ele em vida. Numa de nossas poucas brigas destilei todo o meu veneno rancoroso pra cima dele. E ali no meu caixão ainda me sentia culpado por isso, mesmo ele derramando lágrimas livres de qualquer rancor.

Vendo meu irmão chorar, senti falta de minha irmã que estava morando na Europa. Fiquei imaginando como ela recebeu a notícia. Alguém teria que lhe avisar antes que a página de minha rede social ficasse infestada de mensagens amorosas dizendo que eu iria fazer muita falta.

Minha irmã foi minha companheira de madrugadas durante a infância. Ficávamos horas acordados compartilhando os nossos medos de morrer. Lembro que o transtorno que esse medo causava era tão grande que eu sentia meu coração doer. Eu chorei tanto por causa disso quando criança, que após meus treze anos eu fiquei anos sem chorar. Perdi o medo da morte e a fé nas crenças que eu nunca tive, mas que minha mãe, minha avó materna e a escola de freira que eu estudava me ensinava a ter. Nessa época também eu e minha irmã fomos perdendo a amizade, porém eu nunca deixei de ama-la. Se ela estivesse por perto talvez eu lhe confidenciasse minhas angustias em certas madrugadas e eu ainda estaria vivo. Mas se ela não fosse conquistar o mundo e ficasse aqui em seu país natal estudando numa tentativa utópica e exaustiva e subir na vida em trabalhos claustrofóbicos de escritório, o enterro seria dela. Às vezes é mais fácil ser feliz ao nos acomodarmos com a aventura de trabalhos sub-humanos do que passar a vida querendo ser o diretor de uma empresa multinacional.

As horas, os minutos e os segundos iam passando. Durante a morte o tempo também voa. E os amigos vinham se despedir. Até os inimigos apareciam, como um cara que me roubou e venho verificar se eu realmente estava falecido. Cumprimentou Clara e disse “Pô Clarinha, eu vi o começo do namoro de vocês acontecer…”. O sujeito veio junto com seu primo, Douglas, um grande amigo meu. Porém não o perdoaria pelo resto de minha morte por ter trazido esse sujeito em minha última grande festa. Assim como depois de mortos não viramos santos, eu não deixei de ser rancoroso. Pelo menos na morte não há câncer.

Amigos contavam engraçadas de minha vida. Dentre eles Beto, um de meus grandes amigos que estava acima de qualquer classificação. E pensar que quase brigamos por causa de uma pizza de atum. E ele contava essa história no velório dizendo “E ele queria me bater só porque eu pedi pizza de atum”.
Ele me deu meu primeiro presente de morte. Em vida trocamos por empréstimo uma blusa minha e uma jaqueta de couro dele. Antes de destrocarmos, abriram meu carro enquanto eu transava com uma garota do centro da cidade. Levaram tudo, inclusive a jaqueta de couro. Anos depois ele pediu a jaqueta de volta e eu tive que contar a verdade. Disse que ele poderia ficar com a minha blusa e ele respondeu: “Tá louco? Emprestei blusa nenhuma pra você”. Essa discussão durou anos, com ele sempre dizendo que não havia me emprestado blusa nenhuma, até que hoje ele colocou a minha blusa dentro do meu caixão.

Faltava alguns minutos para o fim do velório e para a minha prisão perpétua embaixo do solo do cemitério da Lapa. Quando surge pela porta uma garota loira. Poucas das pessoas sabiam quem era essa mulher misteriosa. Nem meu irmão sabia. Ela aparecia chorando e sozinha como são os solitários corações apaixonados das amantes. Larissa estava ali promovendo o encontro que eu sempre tentei evitar durante a vida. Sabendo que se ocorresse eu teria que escolher uma das duas. E eu era incapaz de tal escolha. Preferiria mil vezes o suicídio.

Clara sempre soube de tudo. Era minha melhor amiga e sábia do meu passado com Larissa. Quando Larissa virou presente novamente, Clara começou a desconfiar. E como quem procura acha, ela acabou descobrindo. Chegou num momento que não conseguia mais suportar esse amor por duas mulheres. Comecei a tentar convence-las de maneiras sutis a termos uma vida estável a três. A dividirmos uma casinha e vivermos a felicidade proporcionada por um lar harmonioso. Tentei introduzi-las na filosofia da poligamia. Até cheguei a propor um encontro entre nós três para conversarmos, mas não concordaram. Pensei em surpreende-las com um encontro ocasional proposital, mas lembrei do que aconteceu ao personagem de Caio Blat no excelente filme “Histórias de amor duram apenas 90 minutos” e acabei desistindo da ideia. Agora eu não poderia fazer nada, apenas observar o duelo da vida entre as mulheres de minha morte. Os olhares delas se cruzaram frente ao meu caixão. Se fosse um filme eu faria planos psicológicos intercalados no melhor estilo Spaghetti Western dirigido por Sergio Leone. E com direito a trilha sonora de Ennio Morricone.

Estava feliz por ter duas viúvas num mesmo velório, porém me doía ver a dor delas aumentarem por dividir um mesmo homem morto. Principalmente a de Clara, que era a oficial. Nesse momento até os céus choravam uma garoa fina de inverno. Clara me dera o último beijo, encostando seus lábios quentes com gosto de lágrimas negras em minha gelada. Um gesto para mostrar quem manda. Deu-me ainda uma mordida raivosa por faze-la passar por isso. Eu merecia… e foi ela a última pessoa a tocar meu corpo. Poucos segundos fecharam meu caixão que foi carregado em direção a uma cova por Beto, meu pai, meu irmão e meu tio. Seguindo o cortejo, todos os presentes. Minha mãe por minha tinha e minha avó. Um amigo da família empurrara a cadeira de rodas com a minha avó paterna. O triste adeus estava a chegar.

A cova era das mais feias, sem nenhuma escultura de anjos por perto. Mas enfim, eu estava morto e não poderia reclamar, coisa que fiz durante toda a minha vida adulta.

Funcionários desciam meu caixão por cordas. Ainda o derrubaram sem querer, fazendo com que eu batesse a cabeça lá dentro. Algumas pessoas choravam. Minha mãe estava inconsolável. Meu pai estava aéreo, parecendo não saber o que aconteceu realmente. Ele ligou o piloto automático e se manteve em pé para dar forças a minha mãe. Meu irmão pegou o primeiro punhado de terra e antes de joga-lo disse uma frase: “Aqui jaz um imortal. O meu escritor favorito! Vitor Miranda”. A jogou a terra sobre meu caixão que dividia espaço com outros lá embaixo.

Emocionei-me com tal frase. Meu irmão sabia que meu sonho era tornar-me imortal pela minha arte. Acho que não cheguei ao nível de imortalidade histórica como meu ídolo Jim Morrison que também se foi aos 27 anos. Mas deixei alguns curtas-metragens, 2 livros, cada qual com mil cópias circulando por aí, ou encalhados na editora. Talvez com a minha morte à venda dê uma melhorada. Nada demais. Mas os Mamonas Assassinas ficaram eternos com um só livro. Nunca se sabe.

Após meu irmão atirar sem punhado de terra, ele e meu pai se abraçaram fortemente. Depois caminharam até minha mãe e foram embora juntos. Não aguentavam mais estar ali. Algumas pessoas atiraram flores. E enquanto os coveiros atiravam a terra com suas pás sobre minha tumba imortalizada, o momento mais bonito e que fez minha morte valer a pena aconteceu. Clara e Larissa, por coincidência da emoção, assistiam a cena lado a lado. As duas choravam, contendo suas emoções, sem perceber que estavam ali, separadas por alguns centímetros. Ficaram alguns minutos paradas até que os presentes começavam a se dispersarem, até que perceberam estarem uma ao lado da outra. Clara com toda sua maturidade, passou por cima de sua raiva e deu um abraço em Larissa compartilhando suas dores. Larissa retribuiu e eu sorri. Pensando que eu trocaria todas as minhas noites de sexo com todas as mais belas mulheres que eu tive na vida por uma noite de ménage à trois com Clara e Larissa, as mulheres de minha morte.

 

“Pise fundo meu irmão”

de

(Vitor Miranda)

Baseado no conto de Vitor Miranda

 

CENA 01 QUARTO LEANDRO – INT. / NOITE

LEANDRO (24) está deitado com REBECA (24) em sua cama. Eles estão um de frente para o outro. Rebeca faz carinho em Leandro. Leandro pega no sono.

CENA 02 BALADA – INT. / NOITE

LEANDRO (22) e VITOR (20) discutem dentro da balada.

CENA 03 CASA DE LEANDRO – SALA / INT. / TARDE

LEANDRO (24) está dormindo no sofá e acorda com o barulho da campainha. Há poucos cômodos na casa e o ambiente está escuro. Há garrafas de bebidas em um canto. Leandro caminha até a porta e a abre. HELIO (50) está do outro lado da porta.

HELIO

-Tava dormindo? Te acordei?

LEANDRO

-Não. Tava só dando uma descansada.

Entra aí.

HELIO

-Nossa, dormindo a essa hora?

Helio se senta no sofá.

LEANDRO

-Quer beber alguma coisa?

HELIO

-O que que você tem aí?

LEANDRO

-Tem aquele whisky que você gosta.

HELIO

-Pode ser. Tô precisando.

Leandro vai até o armário e pega dois copos e serve whisky.

LEANDRO

- E ai, como você tá?

HELIO

-Indo.

LEANDRO

- E o trabalho?

HELIO

-Uma merda! Só

             pepino pra resolver. Vendo cem

           pau e a empresa só fatura

         sessenta. Cambada de nego burro.

Leandro acende um cigarro.

HELIO

-E você fumando

                 essa merda ainda…

LEANDRO

-Ah para vai pai,

                 eu sempre fumei,

             e o pulmão é meu.

Os dois bebem e ficam um tempo em silêncio.

HELIO

- Tem falado com a sua mãe?

LEANDRO

- Não.

HELIO

Nem eu.

LEANDRO

-E fora o trampo. Como

anda a vida?

HELIO

-Que vida? Não tenho mais família,

não tenho mais mulher.

Só conta pra pagar…

LEANDRO

-Mas foi você que saiu de casa pai.

HELIO

-Que caralho você está falando?!

Você não sabe de porra nenhuma!

Um dia você vai casar, ter

filhos e vai me entender. Alias,

se eu fosse você eu nem faria isso.

LEANDRO

-Só estou dizendo que você

que se distanciou de todo mundo.

HELIO

-Engraçado…

LEANDRO

O que é engraçado?

HELIO

Você dizer isso. Pois tudo

começou por sua culpa.

LEANDRO

-Como é que é? O que que você

quer dizer com isso?

Você tá jogando na minha cara?

HELIO

-Tô falando alguma mentira?

Se não fosse você e

sua irresponsabilidade talvez

eu ainda tivesse família pelo menos.

Leandro levanta e tira o copo da mão de seu pai.

LEANDRO

-Vai embora da minha casa. Você só vem aqui pra reclamar da sua vida. Tá pouco se lixando pros outros. Saí daqui!

Helio se levanta e caminha até próximo ao corredor.

HELIO

-E você? Tá preocupado com as

dores de alguém? Ou só quer saber

das suas?

Entao acho que somos farinha

do mesmo saco.

Helio vai embora. Leandro se senta no sofa e fica um tempo parado. Ele pega o telephone e faz uma ligação. IRENE (44) antende.

LEANDRO

-Alô.

MÃE

-Quem é?

LEANDRO

-Oi mãe, sou eu. Tudo bem?

MÃE

-O que você acha?

Leandro fica mudo e desliga o telefone. Se encolhe no sofa e chora.

CENA 04 FRENTE DA BALADA – EXT. / NOITE

Leandro e Vitor discutem. Leandro dá o bilhete para o manobrista que vai buscar o carro.

CENA 05 CASA DE LEANDRO – SALA INT. / DIA

O telefone toca e Leandro acorda. Ele levanta do sofá, pega o telefone e se senta no sofá novamente.

LEANDRO

-Alo?

Leandro fica parado com o telefone ao ouvido alguns segundos.

VITOR

-Oi… É o Vitor.

LEANDRO

-Eu sei.

Leandro fica mais um tempo em silêncio ao telefone.

VITOR

-Eu queria conversar contigo.

Você pode vir aqui hoje a noite?

LEANDRO

-Posso, claro. Que horas voce acha melhor?

VITOR

-Pode ser umas dez.

LEANDRO

-Beleza. Eu apareço aí.

VITOR

-Valeu. Até mais tarde.

Leandro continua sentado com o telefone na mão. Rebeca aparece na porta da sala que dá para os quartos. Leandro chora. Rebeca vai até Leandro e o abraça.

CENA 06 – EXTERNA – NOITE – FRENTE BALADA

Leandro e Vitor discutem. O manobrista chega com o carro. Os dois entram batendo a porta e o carro sai cantando o pneu.

CENA 07 – BAR – INT. / NOITE

Leandro bebe whisky sozinho na mesa de um bar. Ele olha o relógio, mata o copo de whisky e se levanta.

CENA 08 CARRO – INT. / NOITE

Leandro dirige em alta velocidade. Vitor ameaça se jogar do carro e puxar o freio de mão. Leandro ameaça agredi-lo.

CENA 09 – FRENTE CASA DE VITOR – EXT. / NOITE

Leandro está dentro do carro fumando um cigarro em frente a casa de Vitor. A casa está toda apagada. Sua mãe liga a luz da frente e aparece na janela. Leandro saí do carro, joga o cigarro no chão, passa pelo baixo portão e caminha até a porta da sala. Sua mãe a abre.

CENA 09 – SEQUENCIA 2 – CASA VITOR – SALA INT. NOITE

Leandro entra e olha para IRENE que desvia o olhar. Os dois ficam em silêncio.

LEANDRO

-A senhora pode me dar um abraço?

IRENE

-Você tá fedendo a cigarro.

Irene fecha a porta.

IRENE

-O seu irmão tá no quarto.

Você sabe o caminho.

Irene fica em frente a porta. Ele passa pela sala e vê sua AVÓ (80 anos) sentada na poltrona assistindo televisão.

LEANDRO

-Oi vó. Tudo bem?

AVÓ

Tudo bem meu filho.

LEANDRO

Benção vó.

AVÓ

-Deus lhe abençoe meu filho.

Leandro beija a avó na testa e segue em direção ao quarto. Ele passa pelo corredor observando tudo em volta.

CENA 10 – CARRO – INT. / NOITE

Leandro e Vitor discutem. Vitor desafia Leandro. Leandro tenta agredi-lo. Ouve-se uma freada.

CENA 11 CASA VITOR – QUARTO INT. / NOITE

Leandro bate na porta.

VITOR

- Entre!

A porta se abre e Leandro aparece entrando no quarto. Vitor está numa cadeira de rodas para tetraplégico.

VITOR

-Abaixa o volume da televisão,

por favor.

Leandro pega o controle e abaixa o coloca no mutue. Na televisão está passando o filme Espíritos Indômitos.

VITOR

-Esse é o primeiro filme do Marlon

Brando, Espíritos Indômitos. Ele faz

um soldado que voltou da

guerra paraplégico e ficou em um abrigo

onde ficavam todos os soldados

que tiveram o mesmo destino. A namorada

dele vem visita-lo sempre e tenta

manter a auto-estima.

Quer que ele leve uma vida

normal e se case com ela…

LEANDRO

-Posso fumar um cigarro aqui?

VITOR

- Me faça esse favor e me dá um trago.

Leandro acende o cigarro e coloca o cigarro na boca de Vitor que dá um trago bem forte.

VITOR

-Senta aí.

Leandro se sentou na beira da cama.

VITOR

-E ai como tem passado esse tempo todo?

LEANDRO

-Bem… Trabalhando só…

E continuo com a Rebeca.

VITOR

-Vocês vão casar.

LEANDRO

-E a mamãe tem cuidado bem

de você?

VITOR

-Muito. É só o que ela faz

da vida. Cuidar

de mim… E o pai você tem visto?

LEANDRO

-Pouco.

Os dois ficaram quietos por um tempo.

LEANDRO

-Quer outro trago?

VITOR

-Quero.

Leandro levanta e coloca o cigarro na boca de Vitor novamente e ele traga firme outra vez.

VITOR

-Há anos que eu

não fumo um cigarro.

A mãe jamais colocaria um

cigarro na minha boca.

Leandro senta e fica em silêncio. Vitor volta sua atenção para o filme.

VITOR

-Agora minha única alegria na vida

é assistir filmes.

Vitor olha para Leandro que desvia o olhar. Depois volta a olhar para a TV.

VITOR

-Eu sempre me inspirei no Marlon Brando.

Nesse filme tem uma seqüência em

que ele desiste de tudo. Maltrata a noiva,

briga com seu médico, acho que a única

coisa que ele quer é que a vida termine.

Sabe o que é engraçado? Eu venho pensando

muito nisso. A morte.

Mas a graça disso tudo é que eu não

sou capaz nem de acabar com a

minha própria vida.

Vitor olha novamente para Leandro que dessa vez não consegue desviar o olhar.

VITOR

-Mas você pode fazer isso por mim.

Leandro finge que não é com ele e acende outro cigarro.

VITOR

-Eu tô falando com você!

Leandro levanta.

LEANDRO

-Eu não devia ter vindo aqui.

VITOR

-Por que? Não quer encarar a realidade?

Você já acabou com a minha vida.

Só tô pedindo que termine o serviço.

Você me deve isso. Você me colocou nessa

maldita cadeira de rodas. Você me deixou

tetraplégico. Não fuja da responsabilidade!

Leandro chora enquanto Vitor o encara.

VITOR

-Para de chorar e diz alguma

LEANDRO

-Eu não posso fazer isso.

Leandro vira as costas e vai embora.

VITOR

-Volta aqui seu covarde!

Você acabou com a minha vida!

CENA 11 – SEQUENCIA 2 – CASA VITOR – SALA INT. / NOITE

Leandro passa pela sala apressado. Sua mãe o tenta segurar e o bate.

IRENE

-O que você fez seu desgraçado?!

O que você fez?!

Leandro sai pela porta. Sua avó observa a cena.

CENA 12 – FRENTE CASA DE VITOR – INT. / NOITE

Leandro entra no carro e vai embora.

CENA 13 – CARRO – INT. / NOITE

Leandro dirige e ouve as falas de seus pais e seu irmão. Ele começa acelerar e vê sua vida toda passar pela sua cabeça. Ele dirige em alta velocidade e a tela fica branca.

Estava no balcão do bar bebendo um uísque puro e pensando nas dores da minha vida amorosa. Tive várias oportunidades de viver uma grande paixão com a mulher que eu sempre idealizei como o grande amor da minha vida e não vivi. Talvez por medo ou por orgulho. Por causa dela também nunca consegui me doar por inteiro para nenhuma outra mulher. E olha que tive grandes mulheres que mereceram todo meu respeito e meu amor e eu não consegui dar isso a elas. E hoje sou isso aqui. Um homem solitário beirando aos seus trinta anos de idade sem perspectiva nenhuma de felicidade amorosa. Vivendo com essa sombra no coração que o deixa frio como uma sombra de uma árvore deixa a respectiva parte do solo fresco em um dia de verão dos mais quentes.

Seguia bebendo e com uma teoria filosófica não fundamentada de bar em minha mente. Estava pensando em escrever um próximo livro sobre essa teoria que a nomeei de amor lúdico. Aquela paixão avassaladora recíproca mas que não é vivida em toda sua intensidade por medo de um ou de ambos, ou encontros e desencontros dessa vida, enfim. Por esse motivo nunca sabemos se esse sentimento é real ou é apenas uma utopia amorosa que nos persegue durante toda a vida sem nos deixar parar para viver uma realidade com outra pessoa. Talvez a gente nem se ame, mas também não tivemos colhões para comprovarmos isso.

“Coloca mais uma para mim que eu vou ao banheiro e já volto” falei ao barman e caminhei até o banheiro masculino. Mijei tentando derreter as pedras de gelo que estavam no mictório, lavei as mãos e voltei ao recinto. Dei um gole na minha nova dose de uísque e me virei para a parte do bar aonde estavam as mesas. Adoro ficar no meu canto olhando as pessoas e os seus comportamentos. Sempre foi algo inspirador para o meu trabalho como escritor. Mas hoje tinha algo muito mais inspirador. Laura. Ela estava lá. A minha garota. O meu amor lúdico estava lá sentada numa mesa para dois lugares acompanhada de um cara que estava de costas para mim. A sensação que eu tive foi difícil de descrever. Ao mesmo tempo que fiquei feliz em vê-la bem e sorrindo – tinha saudade daquele sorriso – eu estava me sentindo um fracassado. Meu peito começou a doer como nos tempos de criança em que eu temia a morte. Peguei meu copo e terminei a dose em um só gole. Pedi outra dose e fiquei a observar o comportamento dos dois. Não via o rosto do cara mas ela sorria. Parecia que ela estava super feliz com o tal sujeito. Um garçom se aproximou deles e eles fizeram o pedido. Não pude escutar o que eles pediram. Minha nova dose foi servida e dei um gole. O garçom anotou o pedido e se distanciou da mesa deles. Agora ela parecia contar uma história enquanto ele ouvia. Ela contava com alegria no olhar como me contava todas as suas histórias nos tempos em que nos víamos com mais frequência. Esses tempos nunca duravam o bastante. Mas a gente sempre se divertia e trocava juras de amor. Dizíamos um ao outro que ficaríamos juntos um dia. Mas o tempo passou e ela viajou e quando voltou era tarde, eu já namorava com outra mulher e quando terminei já era tarde pois ela já não me queria. E quando me quis de novo eu não queria nada sério e seguimos nessa briga de orgulhos. E hoje estou aqui bebendo sozinho e com uma imensa inveja do rapaz que está ouvindo ela falar.

 

Ela deu um beijo no rapaz. Como eu tinha saudade desses beijos. Os seus beijos eram os momentos dessa vida em que eu esperava que nunca terminasse. Mas sempre acabava. Assim como acabou o beijo que ela deu no seu acompanhante e ela se encaminhou para o banheiro feminino. Uma curiosidade começou a brotar em mim e eu precisava saber quem era o sujeito que estava com ela. Precisava saber como era o cara que tinha feito ela esquecer de mim. Fiquei alguns segundos criando coragem antes de caminhar até a mesa em que o cara estava sentado. Meus passos eram inseguros, um visível caminhar de um perdedor. Passei direto pela mesa com vontade de desistir e nunca saber quem era o cara com quem ela estava. Mas parei. Esperei alguns segundos e lentamente me virei e olhei diretamente para seu rosto. Ele me olhou nos olhos e eu perdi o chão. O cara tinha o meu rosto. Demorou alguns segundos para que alguém esboçasse uma reação. “Senta aí” disse ele sem transparecer espanto algum. Sentei na cadeira que antes estava ocupada pela minha amada. “Você está acabado, cara” complementou o sujeito. Fiquei ainda mais espantado e perguntei se ele me conhecia. “Claro. Você não está me reconhecendo?”. Não soube o que responder. Apenas fiquei olhando. “Eu sou você” disse ele. Eu disse que não estava entendendo nada e ele continuou “Eu sou você, só que eu terminei com a minha namorada quando a Laura voltou de viagem e a gente começou a namorar”. Fiquei alguns segundos sem entender o que estava acontecendo. O meu outro eu perguntou se eu estava bem e eu não respondi. Estava assustado mas começava a compreender os fatos. Me via ali numa situação tão estranha quanto o conto “versões” de Luís Fernando Veríssimo. Pelo menos eu não havia entrado para o serviço público.

Minha cabeça começou a doer. Doía tanto que parecia fazer barulho. Então me levantei rispidamente e corri em direção a porta do bar e continuei a correr sem destino. Apenas corria…

 

“Acorda Vitor! Já passou do meio dia e seu despertador já disparou umas três vezes. Se você continuar dormido eu não vou fazer almoço pra você” dizia minha mãe com uma certa irritação. “E vê se arruma seu quarto” completou antes de sair.

Lá estava eu em meu quarto com meus vinte e três anos recém acordado de um sonho muito estranho. Ainda assustado com tudo aquilo, me levantei e fui até o banheiro e lavei meu rosto, escovei os dentes e dei a cagada mais reflexiva da minha vida. Pois não há momento melhor para refletir sobre a vida.

Segui atordoado até a cozinha e questionei minha mãe sobre o que havia para o almoço. “Arroz e carne” respondeu ela. Bebi um gole d’água e voltei para o meu quarto. Arrastei meus sapados para embaixo da cama. Peguei as roupas que estavam em cima da cadeira e joguei-as sobre a cama. Abri minha janela e deixei o sol entrar. Liguei meu macbook e me sentei a cadeira. Olhei a bela vizinha do prédio em frente falar ao telefone na varanda do quarto andar. Abri o Google Chrome e li as notícias na página do UOL. O meu tricolor havia perdido mais uma. A polícia havia baleado um manifestante e a presidente Dilma Roussef se preocupava com as manifestações contra a Copa do Mundo no Brasil. Sakamoto postava mais um texto em seu blog e pessoas o xingavam nos comentários. A inflação em alta. Enfim, as mesmas notícias de sempre.

Abri meu e-mail na esperança de uma oportunidade de trabalho e nada. Nem ao menos um e-mail da editora Giostri para confirmar o lançamento do meu livro. Abri então o facebook e conferi as curtidas nas minhas postagens da noite anterior para massagear um pouco meu ego após um sonho tão perturbador.

Havia uma mensagem e cliquei para ler. Era uma mensagem da garota do meu sonho e dizia: “Oi… Quanto tempo. Como você está? É que eu sonhei com você ontem…”.

Não soube o que responder. Pensei em ir refletir no banheiro novamente. Quase saí falando que também tinha sonhado com ela. Cheguei até a escrever isso mas apaguei. Poderia parecer uma cantada oportunista. Então preferi nem tocar no assunto do sonho por mais que eu estivesse estupefato com esse papo dela também ter sonhado comigo. Fiquei pensando e pensando no que escrever e resolvi ir direto ao assunto. “Me conta o que você sonhou?”.

Alguns minutos depois veio a resposta: “Não sei, foi meio estranho. Eu estava num restaurante com um cara quando percebi que você estava lá. Quando tentei me esconder percebi que o cara que estava comigo também era você”.

Levantei da cadeira espantadíssimo achando que era assombração. Eu precisava consultar alguém muito mais espirituoso sobre esse caso pois um cético como eu não poderia acreditar numa situação como essa. Fui ao banheiro e molhei o rosto novamente para ter certeza de que não estava dormindo e de que essa conversa não era mais um sonho. Voltei ao macbook. Fechei e abri o facebook e olhei a conversa. E ela estava lá.

“A comida tá na mesa” gritou minha mãe. Até eu entrar em órbita ela ainda gritou mais umas três vezes. Fui almoçar pensando em tudo isso. Na verdade comi tão rápido que mal pensei. Voltei ao quarto e olhei a conversa novamente. “Preciso de um cigarro” falei para mim mesmo. Desci e me sentei na escada da entrada do condomínio e acendi um cigarro. Pensei em todo o sonho. Na história mal resolvida de todos esses anos que eu tenho com ela. Pensei na teoria do amor lúdico que de fato eu estava escrevendo para um próximo livro e mil coisas me passaram pela cabeça. Talvez eu devesse ir atrás dela e pedi-la em namoro. Mas e se não desse certo? E se desse? Cada escolha que fazemos abre precedentes para outras escolhas. E é tão difícil escolher uma só que às vezes é melhor só ir vivendo e sonhando. E então me coloquei a sonhar ou simplesmente a pensar em sonhos. E me lembrei de uma longa conversa que tive com um grande mestre taoísta durante um de meus sonhos.

Subi correndo e respondi: “Por falar em sonhos. Eu estou num dilema. Vê se você pode me ajudar. Sonhei que eu era uma borboleta e a borboleta sonhou que era eu. Agora eu já não sei se o sonho era meu ou se era da borboleta…”.

 

Ela respondeu: “Que lindo!”.

 

E nessa noite nós sonhamos juntos…

Dia 6 de março de 2013. Meu carro, um golzinho velho caindo aos pedaços se encontra estacionado na Rua Rosa e Silva, Santa Cecília, próximo ao número 300. Dentro dele se encontrava um sujeito indignado com o mundo e com a falsidade das pessoas. No caso o sujeito indignado era o infeliz que vos escreve e as pessoas, num claro singular, meu querido sócio Jaime.

Meu sócio era um cara malandro, boa praça, arranjou alguns clientes durante nosso pequeno período de sociedade. O cara era realmente muito bom de lábia. Só que havia um problema. Ele era carioca. E carioca quando é bom de lábia é pior que taxista argentino. E eu já não sabia se estava indignado de como existem pessoas canalhas no mundo ou se era comigo mesmo por ter me deixado enganar com esse cara.

 

O aparelho de som marcava 11 horas e 46 minutos da manhã. O clima estava quente e a rádio rock 89 FM noticiava a morte do vocalista Chorão. Eu ainda estava em choque. Ao apresentar a participação do Marcelo Nova no Acústico MTV ele disse “Esse cara compôs a trilha-sonora da minha adolescência” e o Chorão com o Charlie Brown compuseram a da minha. E letras como “Eu vejo na TV o que eles falam sobre o jovem não é sério, o jovem no Brasil nunca é levado a sério” ainda soavam na minha mente quando eu fotografava manifestações. Mas no atual momento eu queria era agredir um jovem.

O filho da puta do meu sócio, Jaime, tinha apenas 20 anos e acabara de engravidar a namorada. Depois que eu aconselho as pessoas a abortarem o pessoal me leva a mal. Mas segue em frente e coloca um filho no mundo e começa a lesar os outros. Para ser mais preciso na primeira ocasião eu levei um calote. Fiquei com dó após ver o cara ligar para cinco indivíduos diferentes para pedir dinheiro emprestado. Daí a Madre Tereza de Calcutá que aconselha abortos resolveu ajudar o “amigo” lhe emprestando uma boa quantia para o carioca filho da puta pagar as contas do mês.

 

Acendi meu cigarro e dei uma bela tragada. Já estava há uma hora esperando o pilantra chegar. Na ansiosidade mastigava meus dedos sem parar pensando nas diferentes maneiras que eu poderia arrancar-lhe os dentes ou cortar-lhe as mãos da mesma forma que os monges tibetanos faziam com os ladrões apesar de toda a aura de paz que rondava os mosteiros de Dalai Lama. Porém eu também estava num estado de paz. Decidira após anos de vida cheia de confusões e brigas que nunca mais machucaria alguém fisicamente. Mesmo porque eu apanhei feio em algumas ocasiões. Estava feito Gandhi e seu princípio religioso Ahimsa. Eu era quase um democrata americano fazendo sanções ao invés de bombardear o território inimigo.

Falando nisso o meu querido sócio Jaime era tão mentiroso quanto um presidente americano recebendo o prêmio Nobel da Paz. Parado nesse carro agora, após ter lhe arrancado a máscara, vejo nele uma espécie de Gollum, o Smeagol do filme Senhor dos Anéis. Uma dupla personalidade demoníaca que o faz ser o amigo mais gentil e carismático do mundo e ao mesmo tempo um filho da puta manipulador asqueroso. Tamanho era o seu carisma que até a minha namorada chegou a defende-lo pedindo para eu pegar leve com o Jaime pois poderia ser um desvio psicológico devido a complicação financeira em meio ao turbilhão de emoções que é ter um filho aos 20 anos sem planejamento. Eu respondi “Talvez eu termine minha sociedade e também o meu namoro.”

Engraçado que a mulher dele, mesmo que indiretamente, que me ajudou a descobrir que o Jaime era um sujeito que admirava as mentiras da vida. Talvez, se ela não estivesse grávida, eu pudesse flertar com ela e talvez obter uma foda vingativa.

Jaime um dia me contava que sua mulher estava desconfiada dele pois o banco sumiu com o dinheiro que ele depositou na conta dela. Cerca de 3 mil reais que ela lhe havia emprestado. “Por que você não mostra o comprovante de depósito para ela?” questionei. “Então Vitão, o foda é que eu esqueci de pegar o comprovante e aí fodeu cara. To na maior briga com o banco” respondeu ele. Nada como confidenciar um segredo de seu relacionamento para ganhar a confiança do amigo. Agora éramos quase melhores amigos, tanto que ele começou a me confidenciar as mentiras que contava para a esposa. Após um dia de trabalho atrás de uma locação para uma gravação o telefone dele toca. Ele faz sinal de silêncio com o dedo indicador frente aos lábios. Eu subo a janela do carro, desligo o som e sigo dirigindo num trânsito infernal da Avenida Rebouças às 16h. Ele atende e diz a esposa que acabara de sair do banco: “Oi amor… então acabei de sair do banco… sim, sim… falei com o gerente, o tal de Charles… Então ele disse que ia resolver a situação. O complicado é que eu perdi o comprovante, mas sabe como que é, o cliente sempre tem razão… vai dar tudo certo…“. Depois trocou algumas juras de amor com sua esposa e desligou. Queria perguntar que horas ele foi ao banco já que estávamos juntos desde às 9 da manhã, mas sabe como é… briga de marido e mulher ninguém mete a colher.

Porém, Jaime, queria fazer cartões de visitas semelhantes ao meu, com o nome da minha empresa… “A família da minha namora tem dinheiro. Vire e mexe rola umas festas de família. Preciso entregar uns cartões pros caras. Já entrei na mente de uns deles pra fazer vídeo com a gente”.

Liguei para um amigo de infância, Pablo. Ele era o designer gráfico que fez os meus cartões. “E aí Pablão, beleza?… Então arranjei um sócio e ele precisa fazer uns cartões de visita. Você tem o arquivo do meu cartão aí?… Ah então troca só o nome e os contatos e manda imprimir… Depois eu mando sua conta pro cara fazer o depósito. O nome dele é Jaime.”

 

Já fazia 3 horas que eu estava ali de campana e nada do filho da puta aparecer. Resolvi tomar um guaraná no boteco do final da rua. Na televisão do bar passava o noticiário mostrando uma foto do corpo do Chorão caído na cozinha de um apartamento todo destruído. Enquanto eu sugava meu guaraná pelo canudo alguns caminhoneiros e peões de obra que tomavam uma cachaça faziam piadas de mal gosto envolvendo cocaína e aspirador de pó. Já o dono do bar dizia que fora o Champignon que havia assassinado ele. Depois saiu o resultado da autópsia apontando overdose de cocaína misturada com bebida alcóolica e remédios.

Era o que eu queria fazer. Injetar drogas no maldito até ele ter uma overdose enquanto eu ficaria olhando-o espumar e contorcer todos os músculos do corpo enquanto eu tomava uma cerveja bem gelada.

 

Uma semana depois dos cartões serem encomendados, Pablo me ligou dizendo que estava pronto. Peguei seus dados bancários e enviei para Jaime. Este disse que iria ao banco fazer o depósito. Era uma sexta-feita a tarde. A noite passei na casa do Pablo, peguei os cartões e lhe informei que meu sócio iria fazer o depósito. Na terça Pablo me liga dizendo “Cara você sabe se o cara fez o depósito? Ainda não caiu nada na minha conta”. Liguei para o Jaime que disse que havia esquecido. Falei “Faz esse depósito hoje que o cara está reclamando. Ele teve que desembolsar a parte da gráfica”. Ele disse que estava chegando em casa e que ia parar no banco e mudou de assunto “Amanhã tem a gravação do evento do Fredão lá na Pizzaria Margherita hein”. Disse que estava ciente e perguntei sobre o cachê do último trabalho que tínhamos feito para o Fred. “Então cara estou puto com esses caras. Já cobrei eles várias vezes e nada”. Lamentei o atraso do nosso pagamento, me despedi e desliguei o telefone.

Saí do bar para não discutir com nenhum dos piadistas de humor negro sobre o legado que o Chorão havia deixado para a minha geração. Também estava cansado de esperar e resolvi interfonar no apartamento do Jaime. O porteiro disse que ele não estava. Acendi meu cigarro e me encostei no carro pensando que ele poderia ter pedido ao porteiro que mentisse também.

 

Do mesmo modo que esperava Jaime na frente de seu prédio, o esperei em frente a Pizzaria Margherita. Fumando meu cigarro em longas tragadas. Em frente a Pizzaria ele chegou mais rápido e me acompanhou nos cigarros. Disse que o Fred o ligou avisando que ia atrasar uns vinte minutos, mas que o evento iria começar bem mais tarde. Perguntei se ele havia feito o depósito para o Pablo e ele disse que sim.

Fred chegou e nos convidou para tomar um café. Eu já estava querendo atacar o café fervendo na cara do cliente, mas era negociação do Jaime. Ele que teria que resolver. Só que para minha surpresa Fred sacou um maço de notas do bolso e entregou ao Jaime “Aproveitei e passei no banco no caminho e já saquei a grana do trampo de hoje. Pagamento adiantado e ainda vai dar para comer umas pizzas hein. Que beleza. Na próxima faz um desconto aí”. Jaime me repassou metade da grana e continuou tomando seu café. Eu já não estava entendendo mais nada ou começava a entender melhor o que estava acontecendo.

Tudo ficou mais claro quando na sexta-feira da mesma semana quando Pablo me ligou reclamando que a grana não havia caído na conta dele. “Cara faz o seguinte. Vou passar aí na sua casa e te pago eu mesmo. Se por um acaso a grana cair você me devolve” disse a ele. E foi o que eu fiz após ligar pro Jaime lhe questionando sobre isso. Ele se defendia dizendo havia feito o depósito e jogando a culpa no banco, mas eu já havia escutado essa história. Perguntei se ele tinha pego o comprovante do depósito e ele disse que sim. “Então faz o seguinte. Vou passar aí na sua casa hoje a noite pra pegar meu HD que vou precisar usar e aproveito e pego o comprovante pra mostra para o Pablo”. Ele ficou acuado “Não cara. Eu não vou estar em casa hoje a noite. Tenho um compromisso”. Fiquei bravo “Então você vai deixar o HD e o comprovante na portaria que eu vou passar aí”.
Passei lá ainda com esperança de que eu estava lhe fazendo falsas acusações, porém… nada de comprovante. Mas pelo menos consegui recuperar meu HD externo.

Para comprovar tive de ligar para o Fred e cobrar a grana do vídeo entregue há mais de um mês. Como resposta: “Cara eu já paguei. Eu sempre pago o Jaime no dia do evento”. Tive que cometer a indelicadeza de expor a situação embaraçosa para um cliente que era contato do próprio Jaime e por fim me desculpar.

 

Após alguns dias na caça de Jaime que só me dava desculpas ao telefone para não me encontrar e mais algumas horas de tocaia em frente ao seu prédio avisto o infeliz caminhando com um semblante um tanto assustado ao me ver. Fixo os olhos nos fundos dos olhos dele. Ele se aproxima com uma voz de derrota surpreso com a minha visita mas ainda sim tentando manter suas armaduras com seu olhar presunçoso: “E ai Vitão. O que está pegando? O que veio fazer aqui?”. Quebrei-lhe as pernas “Vim buscar o dinheiro que você me roubou”. Ele entrou em pânico e ao mesmo tempo se mostrou indignado com a acusação dizendo não saber o que estava acontecendo. Disse-lhe então “Se eu estou falando asneira, então faz o seguinte cara. Para provar que eu estou errado. Você vai ligar para o Fred aqui na minha frente e cobrar a grana daquele trabalho do mês passado e depois vai subir e pegar o comprovante de residência do cara do cartão que você esqueceu de deixar na portaria na sexta-feira”. Ele balançava a cabeça hora dizendo que não ia ligar, hora dizendo que tinha arranjado um trabalho para gente. A cada palavra e a cada mentira o meu ódio ia crescendo mais e mais. Quando ele falava em trabalho novo a vontade que eu tinha era de colocar a boca dele na guia e pisar na nuca dele com toda a minha raiva igual o Edward Norton em A Outra História Americana. Mas o princípio Gandhiano do Ahimsa não me deixava fazer mal fisicamente a alguém. Viva a paz e seja passado para trás. Fui embora sabendo que nunca mais veria o meu dinheiro depois de lhe dizer “Cara você é um ladrão. Eu não trabalho mais com você”.

 

Fiz a minha sanção no melhor estilo democrata e fui embora depois de proclamar paz a sociedade e a guerra ao meu psicológico. Durante anos falarei sozinho e socarei o ar imaginando que eu estaria espancando esse filho da puta. Fui embora fumando um cigarro atrás do outro me perguntando: “Por que eu não agredi esse filho da puta?” enquanto socava o volante. Acho que eu merecia um Nobel da Paz e o prêmio de otário do ano.

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