vitorluizmiranda

Estava no balcão do bar bebendo um uísque puro e pensando nas dores da minha vida amorosa. Tive várias oportunidades de viver uma grande paixão com a mulher que eu sempre idealizei como o grande amor da minha vida e não vivi. Talvez por medo ou por orgulho. Por causa dela também nunca consegui me doar por inteiro para nenhuma outra mulher. E olha que tive grandes mulheres que mereceram todo meu respeito e meu amor e eu não consegui dar isso a elas. E hoje sou isso aqui. Um homem solitário beirando aos seus trinta anos de idade sem perspectiva nenhuma de felicidade amorosa. Vivendo com essa sombra no coração que o deixa frio como uma sombra de uma árvore deixa a respectiva parte do solo fresco em um dia de verão dos mais quentes.

Seguia bebendo e com uma teoria filosófica não fundamentada de bar em minha mente. Estava pensando em escrever um próximo livro sobre essa teoria que a nomeei de amor lúdico. Aquela paixão avassaladora recíproca mas que não é vivida em toda sua intensidade por medo de um ou de ambos, ou encontros e desencontros dessa vida, enfim. Por esse motivo nunca sabemos se esse sentimento é real ou é apenas uma utopia amorosa que nos persegue durante toda a vida sem nos deixar parar para viver uma realidade com outra pessoa. Talvez a gente nem se ame, mas também não tivemos colhões para comprovarmos isso.

“Coloca mais uma para mim que eu vou ao banheiro e já volto” falei ao barman e caminhei até o banheiro masculino. Mijei tentando derreter as pedras de gelo que estavam no mictório, lavei as mãos e voltei ao recinto. Dei um gole na minha nova dose de uísque e me virei para a parte do bar aonde estavam as mesas. Adoro ficar no meu canto olhando as pessoas e os seus comportamentos. Sempre foi algo inspirador para o meu trabalho como escritor. Mas hoje tinha algo muito mais inspirador. Laura. Ela estava lá. A minha garota. O meu amor lúdico estava lá sentada numa mesa para dois lugares acompanhada de um cara que estava de costas para mim. A sensação que eu tive foi difícil de descrever. Ao mesmo tempo que fiquei feliz em vê-la bem e sorrindo – tinha saudade daquele sorriso – eu estava me sentindo um fracassado. Meu peito começou a doer como nos tempos de criança em que eu temia a morte. Peguei meu copo e terminei a dose em um só gole. Pedi outra dose e fiquei a observar o comportamento dos dois. Não via o rosto do cara mas ela sorria. Parecia que ela estava super feliz com o tal sujeito. Um garçom se aproximou deles e eles fizeram o pedido. Não pude escutar o que eles pediram. Minha nova dose foi servida e dei um gole. O garçom anotou o pedido e se distanciou da mesa deles. Agora ela parecia contar uma história enquanto ele ouvia. Ela contava com alegria no olhar como me contava todas as suas histórias nos tempos em que nos víamos com mais frequência. Esses tempos nunca duravam o bastante. Mas a gente sempre se divertia e trocava juras de amor. Dizíamos um ao outro que ficaríamos juntos um dia. Mas o tempo passou e ela viajou e quando voltou era tarde, eu já namorava com outra mulher e quando terminei já era tarde pois ela já não me queria. E quando me quis de novo eu não queria nada sério e seguimos nessa briga de orgulhos. E hoje estou aqui bebendo sozinho e com uma imensa inveja do rapaz que está ouvindo ela falar.

 

Ela deu um beijo no rapaz. Como eu tinha saudade desses beijos. Os seus beijos eram os momentos dessa vida em que eu esperava que nunca terminasse. Mas sempre acabava. Assim como acabou o beijo que ela deu no seu acompanhante e ela se encaminhou para o banheiro feminino. Uma curiosidade começou a brotar em mim e eu precisava saber quem era o sujeito que estava com ela. Precisava saber como era o cara que tinha feito ela esquecer de mim. Fiquei alguns segundos criando coragem antes de caminhar até a mesa em que o cara estava sentado. Meus passos eram inseguros, um visível caminhar de um perdedor. Passei direto pela mesa com vontade de desistir e nunca saber quem era o cara com quem ela estava. Mas parei. Esperei alguns segundos e lentamente me virei e olhei diretamente para seu rosto. Ele me olhou nos olhos e eu perdi o chão. O cara tinha o meu rosto. Demorou alguns segundos para que alguém esboçasse uma reação. “Senta aí” disse ele sem transparecer espanto algum. Sentei na cadeira que antes estava ocupada pela minha amada. “Você está acabado, cara” complementou o sujeito. Fiquei ainda mais espantado e perguntei se ele me conhecia. “Claro. Você não está me reconhecendo?”. Não soube o que responder. Apenas fiquei olhando. “Eu sou você” disse ele. Eu disse que não estava entendendo nada e ele continuou “Eu sou você, só que eu terminei com a minha namorada quando a Laura voltou de viagem e a gente começou a namorar”. Fiquei alguns segundos sem entender o que estava acontecendo. O meu outro eu perguntou se eu estava bem e eu não respondi. Estava assustado mas começava a compreender os fatos. Me via ali numa situação tão estranha quanto o conto “versões” de Luís Fernando Veríssimo. Pelo menos eu não havia entrado para o serviço público.

Minha cabeça começou a doer. Doía tanto que parecia fazer barulho. Então me levantei rispidamente e corri em direção a porta do bar e continuei a correr sem destino. Apenas corria…

 

“Acorda Vitor! Já passou do meio dia e seu despertador já disparou umas três vezes. Se você continuar dormido eu não vou fazer almoço pra você” dizia minha mãe com uma certa irritação. “E vê se arruma seu quarto” completou antes de sair.

Lá estava eu em meu quarto com meus vinte e três anos recém acordado de um sonho muito estranho. Ainda assustado com tudo aquilo, me levantei e fui até o banheiro e lavei meu rosto, escovei os dentes e dei a cagada mais reflexiva da minha vida. Pois não há momento melhor para refletir sobre a vida.

Segui atordoado até a cozinha e questionei minha mãe sobre o que havia para o almoço. “Arroz e carne” respondeu ela. Bebi um gole d’água e voltei para o meu quarto. Arrastei meus sapados para embaixo da cama. Peguei as roupas que estavam em cima da cadeira e joguei-as sobre a cama. Abri minha janela e deixei o sol entrar. Liguei meu macbook e me sentei a cadeira. Olhei a bela vizinha do prédio em frente falar ao telefone na varanda do quarto andar. Abri o Google Chrome e li as notícias na página do UOL. O meu tricolor havia perdido mais uma. A polícia havia baleado um manifestante e a presidente Dilma Roussef se preocupava com as manifestações contra a Copa do Mundo no Brasil. Sakamoto postava mais um texto em seu blog e pessoas o xingavam nos comentários. A inflação em alta. Enfim, as mesmas notícias de sempre.

Abri meu e-mail na esperança de uma oportunidade de trabalho e nada. Nem ao menos um e-mail da editora Giostri para confirmar o lançamento do meu livro. Abri então o facebook e conferi as curtidas nas minhas postagens da noite anterior para massagear um pouco meu ego após um sonho tão perturbador.

Havia uma mensagem e cliquei para ler. Era uma mensagem da garota do meu sonho e dizia: “Oi… Quanto tempo. Como você está? É que eu sonhei com você ontem…”.

Não soube o que responder. Pensei em ir refletir no banheiro novamente. Quase saí falando que também tinha sonhado com ela. Cheguei até a escrever isso mas apaguei. Poderia parecer uma cantada oportunista. Então preferi nem tocar no assunto do sonho por mais que eu estivesse estupefato com esse papo dela também ter sonhado comigo. Fiquei pensando e pensando no que escrever e resolvi ir direto ao assunto. “Me conta o que você sonhou?”.

Alguns minutos depois veio a resposta: “Não sei, foi meio estranho. Eu estava num restaurante com um cara quando percebi que você estava lá. Quando tentei me esconder percebi que o cara que estava comigo também era você”.

Levantei da cadeira espantadíssimo achando que era assombração. Eu precisava consultar alguém muito mais espirituoso sobre esse caso pois um cético como eu não poderia acreditar numa situação como essa. Fui ao banheiro e molhei o rosto novamente para ter certeza de que não estava dormindo e de que essa conversa não era mais um sonho. Voltei ao macbook. Fechei e abri o facebook e olhei a conversa. E ela estava lá.

“A comida tá na mesa” gritou minha mãe. Até eu entrar em órbita ela ainda gritou mais umas três vezes. Fui almoçar pensando em tudo isso. Na verdade comi tão rápido que mal pensei. Voltei ao quarto e olhei a conversa novamente. “Preciso de um cigarro” falei para mim mesmo. Desci e me sentei na escada da entrada do condomínio e acendi um cigarro. Pensei em todo o sonho. Na história mal resolvida de todos esses anos que eu tenho com ela. Pensei na teoria do amor lúdico que de fato eu estava escrevendo para um próximo livro e mil coisas me passaram pela cabeça. Talvez eu devesse ir atrás dela e pedi-la em namoro. Mas e se não desse certo? E se desse? Cada escolha que fazemos abre precedentes para outras escolhas. E é tão difícil escolher uma só que às vezes é melhor só ir vivendo e sonhando. E então me coloquei a sonhar ou simplesmente a pensar em sonhos. E me lembrei de uma longa conversa que tive com um grande mestre taoísta durante um de meus sonhos.

Subi correndo e respondi: “Por falar em sonhos. Eu estou num dilema. Vê se você pode me ajudar. Sonhei que eu era uma borboleta e a borboleta sonhou que era eu. Agora eu já não sei se o sonho era meu ou se era da borboleta…”.

 

Ela respondeu: “Que lindo!”.

 

E nessa noite nós sonhamos juntos…

Dia 6 de março de 2013. Meu carro, um golzinho velho caindo aos pedaços se encontra estacionado na Rua Rosa e Silva, Santa Cecília, próximo ao número 300. Dentro dele se encontrava um sujeito indignado com o mundo e com a falsidade das pessoas. No caso o sujeito indignado era o infeliz que vos escreve e as pessoas, num claro singular, meu querido sócio Jaime.

Meu sócio era um cara malandro, boa praça, arranjou alguns clientes durante nosso pequeno período de sociedade. O cara era realmente muito bom de lábia. Só que havia um problema. Ele era carioca. E carioca quando é bom de lábia é pior que taxista argentino. E eu já não sabia se estava indignado de como existem pessoas canalhas no mundo ou se era comigo mesmo por ter me deixado enganar com esse cara.

 

O aparelho de som marcava 11 horas e 46 minutos da manhã. O clima estava quente e a rádio rock 89 FM noticiava a morte do vocalista Chorão. Eu ainda estava em choque. Ao apresentar a participação do Marcelo Nova no Acústico MTV ele disse “Esse cara compôs a trilha-sonora da minha adolescência” e o Chorão com o Charlie Brown compuseram a da minha. E letras como “Eu vejo na TV o que eles falam sobre o jovem não é sério, o jovem no Brasil nunca é levado a sério” ainda soavam na minha mente quando eu fotografava manifestações. Mas no atual momento eu queria era agredir um jovem.

O filho da puta do meu sócio, Jaime, tinha apenas 20 anos e acabara de engravidar a namorada. Depois que eu aconselho as pessoas a abortarem o pessoal me leva a mal. Mas segue em frente e coloca um filho no mundo e começa a lesar os outros. Para ser mais preciso na primeira ocasião eu levei um calote. Fiquei com dó após ver o cara ligar para cinco indivíduos diferentes para pedir dinheiro emprestado. Daí a Madre Tereza de Calcutá que aconselha abortos resolveu ajudar o “amigo” lhe emprestando uma boa quantia para o carioca filho da puta pagar as contas do mês.

 

Acendi meu cigarro e dei uma bela tragada. Já estava há uma hora esperando o pilantra chegar. Na ansiosidade mastigava meus dedos sem parar pensando nas diferentes maneiras que eu poderia arrancar-lhe os dentes ou cortar-lhe as mãos da mesma forma que os monges tibetanos faziam com os ladrões apesar de toda a aura de paz que rondava os mosteiros de Dalai Lama. Porém eu também estava num estado de paz. Decidira após anos de vida cheia de confusões e brigas que nunca mais machucaria alguém fisicamente. Mesmo porque eu apanhei feio em algumas ocasiões. Estava feito Gandhi e seu princípio religioso Ahimsa. Eu era quase um democrata americano fazendo sanções ao invés de bombardear o território inimigo.

Falando nisso o meu querido sócio Jaime era tão mentiroso quanto um presidente americano recebendo o prêmio Nobel da Paz. Parado nesse carro agora, após ter lhe arrancado a máscara, vejo nele uma espécie de Gollum, o Smeagol do filme Senhor dos Anéis. Uma dupla personalidade demoníaca que o faz ser o amigo mais gentil e carismático do mundo e ao mesmo tempo um filho da puta manipulador asqueroso. Tamanho era o seu carisma que até a minha namorada chegou a defende-lo pedindo para eu pegar leve com o Jaime pois poderia ser um desvio psicológico devido a complicação financeira em meio ao turbilhão de emoções que é ter um filho aos 20 anos sem planejamento. Eu respondi “Talvez eu termine minha sociedade e também o meu namoro.”

Engraçado que a mulher dele, mesmo que indiretamente, que me ajudou a descobrir que o Jaime era um sujeito que admirava as mentiras da vida. Talvez, se ela não estivesse grávida, eu pudesse flertar com ela e talvez obter uma foda vingativa.

Jaime um dia me contava que sua mulher estava desconfiada dele pois o banco sumiu com o dinheiro que ele depositou na conta dela. Cerca de 3 mil reais que ela lhe havia emprestado. “Por que você não mostra o comprovante de depósito para ela?” questionei. “Então Vitão, o foda é que eu esqueci de pegar o comprovante e aí fodeu cara. To na maior briga com o banco” respondeu ele. Nada como confidenciar um segredo de seu relacionamento para ganhar a confiança do amigo. Agora éramos quase melhores amigos, tanto que ele começou a me confidenciar as mentiras que contava para a esposa. Após um dia de trabalho atrás de uma locação para uma gravação o telefone dele toca. Ele faz sinal de silêncio com o dedo indicador frente aos lábios. Eu subo a janela do carro, desligo o som e sigo dirigindo num trânsito infernal da Avenida Rebouças às 16h. Ele atende e diz a esposa que acabara de sair do banco: “Oi amor… então acabei de sair do banco… sim, sim… falei com o gerente, o tal de Charles… Então ele disse que ia resolver a situação. O complicado é que eu perdi o comprovante, mas sabe como que é, o cliente sempre tem razão… vai dar tudo certo…“. Depois trocou algumas juras de amor com sua esposa e desligou. Queria perguntar que horas ele foi ao banco já que estávamos juntos desde às 9 da manhã, mas sabe como é… briga de marido e mulher ninguém mete a colher.

Porém, Jaime, queria fazer cartões de visitas semelhantes ao meu, com o nome da minha empresa… “A família da minha namora tem dinheiro. Vire e mexe rola umas festas de família. Preciso entregar uns cartões pros caras. Já entrei na mente de uns deles pra fazer vídeo com a gente”.

Liguei para um amigo de infância, Pablo. Ele era o designer gráfico que fez os meus cartões. “E aí Pablão, beleza?… Então arranjei um sócio e ele precisa fazer uns cartões de visita. Você tem o arquivo do meu cartão aí?… Ah então troca só o nome e os contatos e manda imprimir… Depois eu mando sua conta pro cara fazer o depósito. O nome dele é Jaime.”

 

Já fazia 3 horas que eu estava ali de campana e nada do filho da puta aparecer. Resolvi tomar um guaraná no boteco do final da rua. Na televisão do bar passava o noticiário mostrando uma foto do corpo do Chorão caído na cozinha de um apartamento todo destruído. Enquanto eu sugava meu guaraná pelo canudo alguns caminhoneiros e peões de obra que tomavam uma cachaça faziam piadas de mal gosto envolvendo cocaína e aspirador de pó. Já o dono do bar dizia que fora o Champignon que havia assassinado ele. Depois saiu o resultado da autópsia apontando overdose de cocaína misturada com bebida alcóolica e remédios.

Era o que eu queria fazer. Injetar drogas no maldito até ele ter uma overdose enquanto eu ficaria olhando-o espumar e contorcer todos os músculos do corpo enquanto eu tomava uma cerveja bem gelada.

 

Uma semana depois dos cartões serem encomendados, Pablo me ligou dizendo que estava pronto. Peguei seus dados bancários e enviei para Jaime. Este disse que iria ao banco fazer o depósito. Era uma sexta-feita a tarde. A noite passei na casa do Pablo, peguei os cartões e lhe informei que meu sócio iria fazer o depósito. Na terça Pablo me liga dizendo “Cara você sabe se o cara fez o depósito? Ainda não caiu nada na minha conta”. Liguei para o Jaime que disse que havia esquecido. Falei “Faz esse depósito hoje que o cara está reclamando. Ele teve que desembolsar a parte da gráfica”. Ele disse que estava chegando em casa e que ia parar no banco e mudou de assunto “Amanhã tem a gravação do evento do Fredão lá na Pizzaria Margherita hein”. Disse que estava ciente e perguntei sobre o cachê do último trabalho que tínhamos feito para o Fred. “Então cara estou puto com esses caras. Já cobrei eles várias vezes e nada”. Lamentei o atraso do nosso pagamento, me despedi e desliguei o telefone.

Saí do bar para não discutir com nenhum dos piadistas de humor negro sobre o legado que o Chorão havia deixado para a minha geração. Também estava cansado de esperar e resolvi interfonar no apartamento do Jaime. O porteiro disse que ele não estava. Acendi meu cigarro e me encostei no carro pensando que ele poderia ter pedido ao porteiro que mentisse também.

 

Do mesmo modo que esperava Jaime na frente de seu prédio, o esperei em frente a Pizzaria Margherita. Fumando meu cigarro em longas tragadas. Em frente a Pizzaria ele chegou mais rápido e me acompanhou nos cigarros. Disse que o Fred o ligou avisando que ia atrasar uns vinte minutos, mas que o evento iria começar bem mais tarde. Perguntei se ele havia feito o depósito para o Pablo e ele disse que sim.

Fred chegou e nos convidou para tomar um café. Eu já estava querendo atacar o café fervendo na cara do cliente, mas era negociação do Jaime. Ele que teria que resolver. Só que para minha surpresa Fred sacou um maço de notas do bolso e entregou ao Jaime “Aproveitei e passei no banco no caminho e já saquei a grana do trampo de hoje. Pagamento adiantado e ainda vai dar para comer umas pizzas hein. Que beleza. Na próxima faz um desconto aí”. Jaime me repassou metade da grana e continuou tomando seu café. Eu já não estava entendendo mais nada ou começava a entender melhor o que estava acontecendo.

Tudo ficou mais claro quando na sexta-feira da mesma semana quando Pablo me ligou reclamando que a grana não havia caído na conta dele. “Cara faz o seguinte. Vou passar aí na sua casa e te pago eu mesmo. Se por um acaso a grana cair você me devolve” disse a ele. E foi o que eu fiz após ligar pro Jaime lhe questionando sobre isso. Ele se defendia dizendo havia feito o depósito e jogando a culpa no banco, mas eu já havia escutado essa história. Perguntei se ele tinha pego o comprovante do depósito e ele disse que sim. “Então faz o seguinte. Vou passar aí na sua casa hoje a noite pra pegar meu HD que vou precisar usar e aproveito e pego o comprovante pra mostra para o Pablo”. Ele ficou acuado “Não cara. Eu não vou estar em casa hoje a noite. Tenho um compromisso”. Fiquei bravo “Então você vai deixar o HD e o comprovante na portaria que eu vou passar aí”.
Passei lá ainda com esperança de que eu estava lhe fazendo falsas acusações, porém… nada de comprovante. Mas pelo menos consegui recuperar meu HD externo.

Para comprovar tive de ligar para o Fred e cobrar a grana do vídeo entregue há mais de um mês. Como resposta: “Cara eu já paguei. Eu sempre pago o Jaime no dia do evento”. Tive que cometer a indelicadeza de expor a situação embaraçosa para um cliente que era contato do próprio Jaime e por fim me desculpar.

 

Após alguns dias na caça de Jaime que só me dava desculpas ao telefone para não me encontrar e mais algumas horas de tocaia em frente ao seu prédio avisto o infeliz caminhando com um semblante um tanto assustado ao me ver. Fixo os olhos nos fundos dos olhos dele. Ele se aproxima com uma voz de derrota surpreso com a minha visita mas ainda sim tentando manter suas armaduras com seu olhar presunçoso: “E ai Vitão. O que está pegando? O que veio fazer aqui?”. Quebrei-lhe as pernas “Vim buscar o dinheiro que você me roubou”. Ele entrou em pânico e ao mesmo tempo se mostrou indignado com a acusação dizendo não saber o que estava acontecendo. Disse-lhe então “Se eu estou falando asneira, então faz o seguinte cara. Para provar que eu estou errado. Você vai ligar para o Fred aqui na minha frente e cobrar a grana daquele trabalho do mês passado e depois vai subir e pegar o comprovante de residência do cara do cartão que você esqueceu de deixar na portaria na sexta-feira”. Ele balançava a cabeça hora dizendo que não ia ligar, hora dizendo que tinha arranjado um trabalho para gente. A cada palavra e a cada mentira o meu ódio ia crescendo mais e mais. Quando ele falava em trabalho novo a vontade que eu tinha era de colocar a boca dele na guia e pisar na nuca dele com toda a minha raiva igual o Edward Norton em A Outra História Americana. Mas o princípio Gandhiano do Ahimsa não me deixava fazer mal fisicamente a alguém. Viva a paz e seja passado para trás. Fui embora sabendo que nunca mais veria o meu dinheiro depois de lhe dizer “Cara você é um ladrão. Eu não trabalho mais com você”.

 

Fiz a minha sanção no melhor estilo democrata e fui embora depois de proclamar paz a sociedade e a guerra ao meu psicológico. Durante anos falarei sozinho e socarei o ar imaginando que eu estaria espancando esse filho da puta. Fui embora fumando um cigarro atrás do outro me perguntando: “Por que eu não agredi esse filho da puta?” enquanto socava o volante. Acho que eu merecia um Nobel da Paz e o prêmio de otário do ano.

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 (Conto presente no livro “Num Mar de Solidão” de Vitor Miranda)

Quando criança eu descobri os discos de vinil. Meus pais tinham vários. Um deles sempre me despertou curiosidade, pois havia uma carta escrita por minha mãe para meu pai. Falava sobre amor, mas eu nem sabia o que era isso.

Depois fui crescendo e nunca tive uma boa imagem sobre o casamento, pois sempre via meus pais brigando, muitas vezes minha mãe triste. Meu pai sempre reclamando do casamento nas inúmeras vezes em que voltávamos juntos da regular partida de futebol aos sábados de manhã.

Já com uns 18 anos, retomei meu gosto pelos discos. Peguei todos os discos de meus pais para ouvir na minha vitrola e aquele mesmo disco me chamou a atenção. Numa época de muitas brigas em casa, meus pais querendo se separar. Eu me perguntava que porra de amor era esse que minha mãe escrevera naquele disco.

Até que um tempo depois meu pai teve de ir viajar para a Europa a trabalho e eu fui junto com a minha mãe levá-lo ao aeroporto. Quando ele entrou no salão de embarque minha mãe começou a chorar. Olhei para ela meio surpreso, não entendi muito bem o que estava acontecendo. Ela sorriu, enxugou as lágrimas e disse: “Que estranho. Ele nunca foi pra tão longe”. Um ano mais tarde minha mãe adoeceu, foi internada e os médicos diziam não saber o que ela tinha. Essa foi a vez do meu pai chorar com medo de sua mulher partir. O que seria dele sem minha mãe?

Nesse dia voltei pra casa e coloquei o disco pra tocar. Li e reli a carta na capa do disco umas cem vezes. Senti uma inveja deles e desde então quis experimentar esse tal sentimento, ter uma pessoa que me levasse às lágrimas. Mas o maior desejo era ter a oportunidade de presentear alguém com uma carta de amor escrita na capa de um disco de vinil.

Ela estava sentada numa cadeira fumando um cigarro. Ela deu uma longa tragada e pegou o cigarro entre os dedos da mão direita. Olhava para mim de um jeito que me intimidava esperando que eu falasse algo. Eu não olhava para ela mas sabia que ela estava me olhando desse jeito.

Eu estava deitado em sua cama olhando para o teto com um cigarro apagado na mão esquerda e o isqueiro na outra. Minha mão direita impaciente ficava a acender o isqueiro sem parar. Mais impaciente estava minha cabeça tentando organizar as ideias após mais uma briga. Minhas crises de liberdade, a TPM masculina, que não tem chocolate e nem cartão de crédito que resolva.

Queria aproveitar o calor da briga para terminar com essa relação. Tudo seria mais fácil no amor se todos mantivessem casos. O namoro cria um grau de comprometimento terrível que faz as pessoas sofrerem pois a dor do término é comparável a morte de um ente querido.

As pessoas costumam seguir o fluxo dos acontecimentos e por isso vem parar nessa vida e começam estudar, trabalhar e a procurar um amor para casar e fazer uma família como se isso fosse o segredo da felicidade. E por algum motivo eu segui esse fluxo para o mesmo lugar que todo mundo estava indo. Me apaixonei por uma mulher, me deixei envolver e a pedi em namoro. Meses depois e eu já olhava para o meu futuro e me via com 50 anos assistindo televisão 5D sozinho no sofá da sala, meus filhos trancados no quarto e entrando dentro de seus celulares para brincar de Matrix, enquanto minha mulher estaria no quarto conversando com seu sistema operacional pelo qual estaria apaixonada. Compreensível já que o sistema operacional lhe daria mais atenção do que seu próprio marido.

Eu tenho mais medo de virar um sujeito normal como qualquer outro ser humano manipulado pelos moldes psicológicos bíblicos e não ter mais sobre o que escrever do que ficar velho sozinho e escrever sobre a solidão. Talvez escreveria “Num mar de rugas solitárias”. Pois a coisa mais triste que pode acontecer para um escritor é ele deixar que a vida comece a escrever a sua história ao invés dele escrever histórias sobre a vida.

Acho que na vida o fluxo é a ilusão de felicidade e o contra-fluxo é uma tristeza ilusória. Mas no fim o que conta mesmo é a sensação térmica e não os graus celcius.

Ela sentindo o que estava para acontecer começou a falar já que eu não conseguia. A cada esforço que eu fazia para tentar dizer o que eu queria lágrimas escorriam dos meus olhos. Minha garganta fechava e a voz não saia. Tentei não escutar o que ela falava pois por mais que o homem seja malandro, a mulher que a gente ama sempre nos leva na conversa. Elas sabem que controlam o nosso coração e que nós somos uns bundões frente a elas. O que nos torna uma presa fácil a ser manipulada. “Olha, eu sei que estamos passando por um momento difícil. Para mim está sendo super difícil também. Mas eu te amo! Acho que quando a gente ama, a gente tem que se adaptar. Isso leva tempo. Mas acho que deveríamos tentar. Eu estou disposta a tentar. A gente está construindo uma história bonita. Talvez a gente possa ficar uma semana afastado pra pensarmos um pouco…“ dizia ela. Mas eu não queria pensar, pois se eu pensasse iria dar pra trás. E cada palavra que ela dizia aumentava mais o meu sofrimento em vê-la sofrer. Juntei minhas forças para me sentar na cama e acendi um cigarro para me encorajar, mas mesmo assim quase não emiti som ao falar que eu já havia pensado. Agora já não controlava minhas lágrimas e numa imensa covardia escondi meu rosto com minha mão direita e disse soluçando “não dá mais“. Agora ela começou a chorar também. Suas lágrimas eram negras como a música que ela tanto gostava. Eu quis abraça-la e dar todo conforto do mundo a ela, mas a dor que ela sentia era eu que estava lhe causando. Tentei abraça-la. Ela me empurrou e disse para eu ir embora. Pedi desculpa e ela respondeu “Vai embora. Eu preciso ficar sozinha.“

Ao sair da porta de seu quarto percebi que essa seria a última vez que eu estava saindo desse quarto onde dividimos nosso amor e nossos segredos. Que o abraço que eu tentei lhe dar poderia ter sido o último abraço, mas ele não aconteceu. Nem ao menos trocamos o último olhar e se tivéssemos trocado esse último olhar seria cheio de lágrimas. Lágrimas negras. Negra como a morte. Meu peito doía como nas noites de infância em que eu temia a morte.

Acho que nunca me arrependi tanto de uma atitude que tomei em tão pouco segundos após ela ser tomada. Mas não posso lhe dar um tiro no peito e segundos depois pedir desculpas e querer que a ferida se cure. Tinha que ir embora. Segui o fluxo descendo pela última vez aquela escada e deixando lágrimas pelo caminho. Passei pela cozinha sem olhar para a mesa para não sofrer com as lembranças das tantas vezes que jantamos ali. Desci o lance de escadas que dava na garagem e abri pela última vez esse portão. Talvez tenha sido a primeira vez que eu abri pois ela sempre abria e fechava o portão para mim. Tirei meu carro pela última vez e tive que fechar o portão para mim mesmo.

Acho que esse gesto simbolizava o que estava acontecendo. Fui embora chorando enquanto dirigia pensando nisso. Eu estava fechando a porta para uma história que estava começando. Por que não deixar as coisas rolarem naturalmente? A vida não é um livro para eu ficar fantasiando a história que eu quiser. Talvez eu devesse tirar férias e deixar que a vida escrevesse um pouco por mim. Quem sabe o tiro que eu dei não fora fatal . Mas a cicatriz sempre vai existir. Porém eu poderia fazer a volta e pegar o contra-fluxo dessa avenida para seguir o fluxo da minha vida.

Enquanto não me decidia o sinal ficou vermelho para mim e eu fiquei parado ali em cima da faixa de pedestres. Um sujeito com um buquê na mão se aproximou e perguntou “Flores pra namorada?“

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E se o tempo voltasse?

E as rugas sumissem?

Como um retro, flash back

E se deitássemos num deck?

Olharíamos as estrelas

Ouviríamos o mar

Sentiríamos uma brisa no ar

Que faria o tempo parar

 

Mas com o tempo as maquinas

Que destruíram a Terra,

Nos tiraram empregos,

Nos tornaram escravos da tecnologia moderna.

 

Como eram bons os tempos

Dos homens das cavernas

E das espadas em guerras

 

Com o tempo a dor,

Que nos tirou um amor

 

Mas o tempo nos trará outro amor

Com um novo amor outras dores

 

Mas no céu vejo as cores

De um arco íris bonito,

Pingos de chuvas, raios solares,

Um efeito tão lindo

Na esperança que o tempo

Me leve sorrindo.

As avenidas são todas iguais,

Às vezes agente se perde,

Para, senta, chora, pensa,

Acaba voltando para o mesmo lugar de onde saímos.

 

Desistência, alguns diriam,

Eu digo proteção

Voltamos sempre aos braços de quem nos protege.

Um amor, uma mãe.

 

As mães também são todas iguais

Só mudam de endereço, ruas ou avenidas,

Mas as avenidas também são todas iguais

 

O coração é nosso guia,

O amor são migalhas que deixamos pelo caminho

Pois os filhos sempre voltam.

Fui passar uns dias no Maranhão e é uma viagem que indico a todos.

Passei um dia em São Luis na Av. Litoranea, aonde jantei no restaurante Cabana do Sol, um Filet de Sol espetácular, camarão e peixes maravilhos e o famoso arroz de cuxá.

No dia seguinte segui para Barreirinhas, aonde deixamos os carros e alugamos os quadriciclos do Afonso, e ele nos guiou numa viagem de 3 horas, passando por pastos, vilas, matas fechada, dunas e praia até chegar a pousada em que ficamos hospedados.

A pousada só nos servia de parada para dormir, pois passamos os dias fazendo passeios pelo Rio Preguiças.

Um dia paramos na Pousada do Buna, uma figura bem engraçada que nos levou até as dunas para um passeio a pé de 1 hora até chegarmos a uma lagoa de lençol d’água que nasceu no meio das dunas, a Lagoa Verde, e um monte delas existem pelas dunas.

Depois o Buna nos levou para almoçar na Luzia, que é a dona de um famoso restaurante que fica próximo as dunas, que além de fazer uma comida deliciosa, é famosa na região por ter dois maridos.

No outro dia, o Buna nos serviu um banquete no almoço, e passamos o dia na piscina e nas redes de sua pousada. Nesse mesmo dia passamos no Vilarejo de Mandacaru, uma vila de pescadores com cerca de 1500 habitantes, onde se localiza o farol. Os guias do vilarejo são crianças, e frequentemente você ouve uma delas cantando a música “Xote das Meninas” do grande Gonzagão.

No último dia, paramos em um lugar onde havia vários macacos prego que buscavam bananas nas mãos dos visitantes, e tinham mais alguns lençóis para admirar.

Depois seguimos para Barreirinhas para buscar os carros e partir para São Luis, onde passamos no Centro Histórico, um lugar muito lindo, com cheiro de arte.

Porém, temos que citar as coisas ruins que acontece por onde passamos, como o Aeroporto Internacional de São Luis, que está todo destelhado e a sala de embarque e a de desembarque são improvisada por tendas.

A estrada que liga São Luis a Barreirinhas, uma rodovia BR de forte movimento, onde pessoas do mundo inteiro transitam, está sem condições de uso, depressões e buracos na pista, lombadas mal feitas uma atrás da outra, e num trecho da rodovia a policia tem que travar um dos fluxos para o outro fluir e visse e versa.

E o centro histórico de São Luis merece uma restauração, os prédios estão caindo em pedaços.

Porém, as mansões de Roseana Sarney estão lindas e maravilhosas, uma próxima a Av. Litoranea com vista para o mar em São Luis, e outra a beira do Rio Preguiças em Barreirinhas. Será que ela usa a estrada ou faz esse percurso de helicóptero?

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